O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 113
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
sob as ruínas de uma antiga sinagoga no bairro do Cali. Quando as últimas muralhas da
cidade caíram, houve um deslizamento de terra, e o túnel foi inundado pelas águas da tor-
rente subterrânea que corre há séculos sob aquilo que hoje em dia é a Rambla. Agora é
impraticável, mas supomos que durante muito tempo esse túnel foi uma das principais vias
de acesso a esse lugar. A maior parte da estrutura atual desenvolveu-se durante o século
XIX. Não há mais de cem pessoas em toda a cidade que conheçam esse lugar e espero
que Sempere não tenha cometido um erro ao incluí-lo entre elas...
Neguei energicamente, mas Isaac olhou para mim com ceticismo.
— Artigo três: pode enterrar seu livro onde quiser.
— E se eu me perder?
— Uma cláusula adicional, de minha lavra: tente não se perder.
— Alguém já se perdeu alguma vez?
Isaac deixou escapar um suspiro.
— Quando cheguei aqui, há anos, contava-se a história de Dario Alberti de Cymerman.
Suponho que Sempere não deve ter lhe falado disso, claro..
— Cymerman? O historiador?
— Não, o domador de focas. Quantos Daríos Alberti Cymerman conhece? O caso é
que, no inverno de 1889, Cymerman penetrou no labirinto e desapareceu dentro dele por
uma semana. Foi encontrado escondido num dos túneis, meio morto de terror. Emparedou-
se atrás de várias fileiras de textos sagrados para não ser visto...
— Visto por quem?
Isaac olhou-me longamente.
— Pelo homem de preto. Tem certeza que Sempere não lhe contou isso?
— Tenho.
Isaac baixou a voz e adotou um tom confidencial.
— Ao longo dos anos, alguns associados afirmaram ter visto o homem de preto
algumas vezes, nos túneis do labirinto. Cada um o descreve de uma maneira diferente. Há
inclusive quem garanta que falou com ele. Houve um tempo em que correu o rumor de que
o homem de preto era o espírito de um autor maldito, traído por um associado que pegou
um livro seu e não manteve a promessa feita: o livro se perdeu para sempre e o defunto
autor vaga eternamente pelos corredores buscando vingança, sabe como é, essas coisas
à moda de Henry James que as pessoas tanto apreciam.
— Não vá me dizer que acredita nisso?
— Claro que não. Tenho outra teoria. A de Cymerman.