O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 112

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA 20 Segui o guardião até a base da grande nave que sustentava o labirinto. O chão que pisávamos estava todo remendado com lousas e lápides, cheias de inscrições funerárias, cruzes e retratos diluídos na pedra. O guardião parou e deslizou o lampião a gás sobre algumas das peças daquele macabro quebra-cabeças para que eu apreciasse. — Restos de um antigo cemitério — explicou. — Mas que isso não lhe dê a idéia de cair morto por aqui. Continuamos até uma área localizada na frente da estrutura central e que parecia fazer as vezes de soleira. Isaac ia recitando normas e deveres sem parar, cravando em mim um olhar que eu tentava rebater com um ar de concordância muda. — Artigo um: a primeira vez que alguém vem aqui, tem direito de escolher um livro, o que desejar, dentre todos os que existem nesse lugar. Artigo dois: quem adota um livro, assume a obrigação de protegê-lo e fazer tudo o que for possível para que nunca se perca. Para a vida inteira. Dúvidas até o momento? Levantei os olhos para a imensidão do labirinto. — Como escolher um só livro entre tantos? Isaac deu de ombros. — Há quem prefira acreditar que é o livro que escolhe a pessoa... O destino, por assim dizer. O que está vendo aqui é a soma de séculos de livros perdidos e esquecidos, livros que estavam condenados a ser destruídos e silenciados para sempre, livros que preservam a memória e a lama de tempos e prodígios que ninguém mais lembra. Nenhum de nós, nem os mais velhos, sabe exatamente quando foi criado ou por quem. Provavelmente, é quase tão antigo quanto a própria cidade e foi crescendo com ela, à sua sombra. Sabemos que o edifício foi construído com restos de todos os palácios, igrejas, prisões e hospitais que já existiram alguma vez nesse lugar. A origem da estrutura principal é do início do século XVIII e não parou de se transformar desde então. Anteriormente, o Cemitério dos Livros Esquecidos ficava oculto sob os túneis da cidade medieval. Há quem diga que, nos tempos da Inquisição, pessoas de saber e de mente livre escondiam os livros proibidos em sarcófagos ou enterravam-nos nas urnas que havia por toda a cidade para protegê-los, esperando que as gerações futuras pudessem desenterrá-los. Em meados do século passado, foi encontrado um longo túnel que conduz das entranhas do labirinto até os porões de uma velha biblioteca que hoje em dia está fechada e escondida