O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 119

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA sopro de luz branca abriu o céu e um manto tecido de gotas de chuva desmoronou como uma cortina de punhais de cristal. Um instante antes que a primeira gota tocasse o solo, o tempo parou e centenas de milhares de lágrimas de luz ficaram suspensas no ar como partículas de poeira. Tive a sensação de que algo ou alguém caminhava às minhas costas e pude sentir seu hálito na nuca, frio e impregnado do fedor de carne putrefata e fogo. Senti que seus dedos, longos e afilados, fechavam-se sobre minha pele e, naquele exato momento, atravessando a chuva suspensa, apareceu aquela menina que só vivia no retrato que eu apertava contra o peito. Pegou minha mão e foi me guiando de volta para a casa da torre, deixando para trás aquela presença gelada que se arrastava às minhas costas. Quando recobrei a consciência, tinham se passado sete dias. Amanhecia o dia 13 de julho, sexta-feira.