O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 110

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Sempere assentiu com severidade. Esperamos alguns minutos até que ouvimos um barulho que parecia ser de cem ferrolhos fechando simultaneamente. O portão entreabriu- se com um profundo gemido e o rosto de um homem de meia-idade e cabelos ralos, expressão aguda e olhar penetrante surgiu. — Sempere, para variar. Era só o que me faltava! — cutucou. — O que me traz hoje? Mais um viciado em letras que não arranja namorada porque prefere morar com mamãe? Sempere não deu nenhuma bola para a sarcástica recepção. — Martín, esse é Isaac Monfort, guardião deste lugar e dono de uma simpatia sem igual. Ouça com atenção tudo que disser. Isaac, esse é David Martín, bom amigo, escritor e pessoa de minha confiança. O tal Isaac olhou-me de cima a baixo com pouco entusiasmo e trocou um olhar com Sempere. — Um escritor nunca é uma pessoa de confiança. Vamos ver, Sempere já lhe explicou as regras. — Só que não posso falar a ninguém sobre nada do que vou ver aqui. — Essa é a primeira e mais importante. Se não a cumprir, eu mesmo vou atrás de você e torço seu pescoço. Percebeu o espírito da coisa? — Totalmente. — Pois então vamos — disse Isaac, fazendo um gesto para que entrasse. — Tenho que me despedir agora, Martín, e deixar vocês. Estará seguro aqui. Compreendi que Sempere se referia ao livro, não a mim. Abraçou-me com força e, em seguida, perdeu-se na noite. Cruzei a soleira, e o tal Isaac puxou uma alavanca do outro lado. Mil mecanismos emaranhados numa teia de aranha de trilhos e roldanas fecharam o portão. Isaac pegou um candeeiro do chão e levantou à altura de meu rosto. — Não está com uma cara boa — sentenciou. — Indigestão — repliquei. — De quê? — De realidade. — Melhor entrar na fila — atalhou. Avançamos por um longo corredor. Nas laterais, veladas pela penumbra, se adivinhavam afrescos e escadarias de mármore. Entramos naquele recinto palaciano e aos poucos vislumbrei à minha frente a entrada do que parecia ser uma grande sala. — O que traz aí? — perguntou Isaac. — Os Passos do Céu. Um romance.