O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 109
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
Dois minutos depois, o filho do livreiro voltou com um saco de papel contendo o que
havia de melhor na confeitaria do bairro. Passou-me o saco e escolhi um brioche que, em
outra ocasião, teria me parecido tão tentador quanto o traseiro de uma corista.
— Coma — ordenou Sempere.
Comi o brioche docilmente. Aos pouquinhos, comecei a me sentir melhor.
— Parece que está revivendo — observou o filho.
— O que os bolos da esquina não são capazes de curar....
Naquele instante, ouvimos a campainha da porta. Um cliente tinha entrado na livraria
e, a um sinal positivo do pai, Sempere filho nos deixou para atendê-lo. O livreiro ficou a
meu lado, tentando medir minha pulsação apertando o pulso com o dedo.
— Sr. Sempere, lembra quando me disse, anos atrás, que se algum dia tivesse que
salvar um livro, mas salvá-lo de verdade, viesse vê-lo?
Sempere passou os olhos pelo livro que tinha retirado da lixeira onde minha mãe o
tinha jogado e que ainda estava em minhas mãos.
— Dê-me cinco minutos.
Começava a escurecer quando descemos pela Rambla entre a multidão que tinha
saído para passear naquela tarde calorenta e úmida. Soprava apenas um arremedo de
brisa, varandas e janelas estavam abertas de par em par, as pessoas debruçadas
contemplando aquele desfile de silhuetas sob o céu inflamado, cor de âmbar. Sempere
caminhava em passos rápidos e não diminuiu a marcha até avistarmos o pórtico sombrio
que se abria na entrada da Rua do Arc del Teatre. Antes de atravessar, olhou-me
solenemente e disse:
— Martín, o que vai ver agora não pode ser contado a ninguém, nem a Vidal. A
ninguém.
Concordei, intrigado com o ar de seriedade e segredo do livreiro. Segui Sempere pela
Ruazinha estreita, apenas uma brecha entre edifícios sombrios e arruinados que pareciam
se inclinar como salgueiros de pedra para fechar o pedaço de céu que se estendia em
frente aos telhados. Logo chegamos a um grande portão de madeira que parecia ser de
uma velha basílica que tivesse permanecido cem anos no fundo de um pântano. Sempere
subiu os dois degraus que levavam ao portão e segurou a tranca de bronze forjado, na
forma de um sorridente diabinho. Bateu três vezes e desceu de novo para esperar a meu
lado.
— O que vai ver agora não pode ser dito a...
— ... a ninguém. Nem a Vidal. A ninguém.