O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 108
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
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Sempere pai estava sozinho em sua livraria colando a lombada de um exemplar de
Fortunata e Jacinta que estava caindo aos pedaços, quando levantou os olhos e me viu do
outro lado da porta. Só precisou de um segundo para perceber o estado em que me
encontrava. Fez sinal para que entrasse. Assim que entrei, o livreiro me ofereceu uma
cadeira.
— Não está com cara boa, Martín. Devia procurar um médico. Se não tiver coragem,
vou com você. Também tenho horror a médico, todos de branco e com coisas pontiagudas
nas mãos, mas às vezes não tem outro jeito.
— É só uma dor de cabeça, Sr. Sempere. Já está passando.
Sempere me deu um copo d'água de Vichy.
— Tome. Isso cura tudo, menos burrice, que é uma epidemia sempre em alta.
Sorri sem vontade para a piada de Sempere. Acabei o copo d'água e suspirei. Senti a
náusea nos lábios e uma forte pressão interna latejando atrás do meu olho esquerdo. Por
um instante, pensei que ia desmaiar e fechei os olhos. Respirei fundo, suplicando para não
cair duro bem ali. O destino não podia ter um senso de humor tão perverso a ponto de ter
me levado até a livraria de Sempere para, em agradecimento a tudo que tinha feito por
mim, deixar-lhe meu cadáver como presente. Senti uma mão que segurava minha testa
com delicadeza. Sempere. Abri os olhos e encontrei o livreiro junto com o filho, que tinha
acorrido, observando-me com uma expressão de velório.
— Quer que avise o médico? — perguntou Sempere filho.
— Já estou melhor, obrigado. Muito melhor.
— Pois esse seu jeito de melhorar é de arrepiar os cabelos. Você está cinzento.
— Mais um pouquinho d'água?
Sempere filho apressou-se a encher meu copo de novo.
— Desculpem o espetáculo — disse eu. — Garanto que não planejei isso.
— Não diga bobagem.
— Talvez fosse melhor comer algo bem doce. Pode ser falta de açúcar... — sugeriu o
filho.
— Vá à padaria da esquina e traga alguns doces — concordou o livreiro.
Quando ficamos sozinhos, Sempere cravou os olhos em mim.
— Juro que vou procurar o médico — contemporizei.