O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 107

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA Minha mãe parou um momento diante do portão da igreja de Betlem e eu fiz um sinal ao moleque, que correu até ela. Assisti à cena de longe, sem poder ouvir o que dizia. O menino entregou o pacote e ela olhou espantada, hesitando entre aceitá-lo ou não. O menino insistiu e, finalmente, ela pegou o pacote e ficou olhando o menino que saiu correndo. Desconcertada, virou-se para um lado e outro, procurando com o olhar. Sentiu o peso do pacote, examinando o papel púrpura que o embrulhava. Finalmente, a curiosidade levou a melhor e ela o abriu. Eu vi quando retirou o livro. Segurou com uma das mãos, olhando a capa e depois virando o volume para examinar a contracapa. Senti que o fôlego me faltava e quis me aproximar dela, mas não pude. Fiquei ali, a poucos metros de minha mãe, espiando-a sem que ela reparasse na minha presença, até que retomou a caminhada com o livro nas mãos, rumo a Colón. Ao passar diante do Palau de la Virreina aproximou-se de uma lixeira e jogou-o lá dentro. Eu a vi partir Rambla abaixo até se perder na multidão, como se nunca tivesse estado ali.