O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 106
PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO
DA
L EITURA
As paredes estavam cobertas de estantes com grandes bobinas de tecidos de todo
tipo e, sobre as mesas, os vendedores, armados de fitas métricas e tesouras especiais
amarradas à cintura, mostravam a senhoras da sociedade, escoltadas por suas criadas e
costureiras, as mais refinadas tramas, como se fossem materiais preciosos.
— Posso ajudá-lo em alguma coisa, cavalheiro?
Era um homem corpulento e com voz esganiçada, enfiado num terno de flanela que
parecia a ponto de explodir a qualquer momento, enchendo a loja de retalhos flutuantes de
tecido. Tinha um ar condescendente e um sorriso entre forçado e hostil.
— Não — murmurei.
Foi então que a vi. Minha mãe descia a escada com um punhado de retalhos na mão.
Vestia uma blusa branca. Eu a reconheci no mesmo instante. Sua figura tinha se alargado
um pouco e seu rosto, menos nítido, mostrava aquele leve desalento da rotina e do
desengano. O vendedor, irritado, continuava falando, mas eu mal percebia sua voz. Só via
minha mãe, aproximando-se e cruzando bem na minha frente. Por um segundo, olhou para
mim e, ao ver que a estava observando, sorriu docilmente, como se sorri a um cliente ou
um patrão, e em seguida continuou seu trabalho. Um nó tão grande apertou minha
garganta que mal pude abrir os lábios para interromper o vendedor e, já com lágrimas nos
olhos, quase me faltou tempo para chegar à saída. Na Rua, atravessei para o outro lado e
entrei num café. Sentei numa mesa junto à janela, da qual podia ver a porta da El índio, e
esperei.
Tinham se passado quase uma hora e meia quando vi o vendedor que tinha me
atendido sair e abaixar a grade da entrada. Aos poucos, as luzes começaram a se apagar
e alguns dos vendedores da loja passaram por mim. Levantei e fui até a Rua. Um moleque
de cerca de 10 anos estava sentado no portão ao lado, me olhando. Fiz um sinal para que
se aproximasse. Ele veio e mostrei-lhe uma moeda. Sorriu de orelha a orelha e constatei
que lhe faltavam vários dentes.
— Está vendo esse pacote? Quero que o entregue a uma senhora que vai sair agora.
Deve dizer que um cavalheiro mandou entregar, mas não diga que fui eu. Entendeu?
O moleque fez que sim. Dei-lhe a moeda e o livro.
— Agora, vamos aguardar.
Não precisei esperar muito tempo. Três minutos depois eu a vi sair. Caminhava em
direção a Rambla.
— É aquela senhora. Está vendo?