O joo do anjo Carlos Ruíz Zafón - O Jogo do Anjo | Page 104

PDL – P ROJETO D EMOCRATIZAÇÃO DA L EITURA — O que esperava? Não é um deles. Nunca vai ser, nunca quis ser e ainda acha que vão perdoá-lo? Fica trancado em seu casarão e pensa que pode sobreviver sem se juntar ao coro dos contentes e vestir a camisa do time. Pois está muito enganado, David. Sempre esteve. O jogo não é bem assim. Se quer jogar sozinho, melhor fazer as malas e ir para algum lugar onde possa ser dono de seu destino, se é que isso existe. Mas se decidir ficar aqui é melhor entrar para alguma panelinha, qualquer uma. É simples assim. — É isso que tem feito, dom Pedro? Fazer parte de uma panelinha? — Eu não preciso disso, David. Eu lhes dou de comer e você também nunca entendeu isso. — Ficaria surpreso com a rapidez com que estou me atualizando... Mas não se preocupe, pois essas resenhas são o de menos. Para o bem ou para o mal, amanhã ninguém vai se lembrar delas, nem das minhas, nem das suas. — Qual é o problema, então? — Deixe estar. — São aqueles dois filhos da puta? Barrido e o ladrão de cemitérios? — Pode esquecer dom Pedro. Como acabou de dizer, a culpa é minha e de mais ninguém. O maître aproximou-se com um olhar interrogativo. Eu não tinha nem olhado o cardápio e não pensava em fazê-lo. — O de sempre, para os dois — ordenou dom Pedro. O maître afastou-se com uma reverência. Vidal me observava como se eu fosse um animal perigoso preso numa jaula. — Cristina não pôde vir — disse. — Trouxe isso, para que escreva uma dedicatória para ela. Pousou na mesa o exemplar de Os Passos do Céu, embrulhado em papel púrpura com o selo da livraria Sempere e Filhos, e empurrou para mim. Não fiz menção de pegá-lo. Vidal estava pálido. A veemência do discurso e o tom defensivo tinham desaparecido. Lá vem porrada, pensei. — Diga de uma vez o que tem a dizer, dom Pedro. Não vou mordê-lo. Vidal bebeu o vinho de um só gole. — Há duas coisas que queria lhe dizer e você não vai gostar. — Estou começando a me acostumar. — Uma tem a ver com seu pai. Senti que aquele sorriso envenenado afundava em meus lábios.