My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Página 70

59 proibir a entrada de jornalistas lá, para evitar que a sujeira que acontecia por debaixo dos panos vazasse. É que a repressão, quando acontece, é generalizada. Adélia conseguiu um habeas corpus e podia entrar quando quisesse. Os agentes a viam chegando e faziam sinal um para o outro: “Sujou”. De coisas assim que ela se lembra, a vez que noticiou um pé de maconha na delegacia. Virou manchete, algo como “delegado cultiva maconha na antessala”. No dia seguinte, o pé da planta sumiu. Ela ajudou a desconstruir a ideia de que pauta estava só no livro de ocorrências: houve um assalto, um arrombamento, roubaram galinha… Às vezes, negociava com o delegado, perguntando se não tinha acontecido nada de diferente na madrugada. Às vezes, os próprios agentes ajudavam. Os meninos que trabalhavam na editoria policial namoravam prostitutas, e aí já passavam a noite de olho no que acontecia. Ela descobria na raça. Adélia foi a substituta de Terezinha Cardoso, primeira repórter policial do país. Terezinha saiu porque queria explorar a área cultural. Do submundo para os palcos. Encontrou guarida foi no jornalismo de saúde, que considerava o seu melhor momento. Uma outra história das boas foi a vez que, numa ronda para caçar pauta policial, Adélia foi para a Penitenciária de Piraquara. E estava usando minissaia. No meio da entrevista, ouviu uma barulheira, começou um rumor, uma bateção de grade. Aí o agente foi falar com o diretor da penitenciária – “é porque a repórter está aqui”. Adélia pensou que era porque queriam denunciar alguma coisa, mas não: era porque ela tinha passado pelas grades usando minissaia. Foi quase uma rebelião. No âmbito da moda, nunca se considerou fashion. Adélia Lopes estava mais para o movimento hippie. Camisa listrada, macacão, jeans, minissaia. Às vezes, andava descalça. Um dia tentou se arrumar “mais bonitinha” e a chamaram de bibliotecária. Desistiu. Em um dos aniversários do Estadinho, os chefões a chamaram num canto: “Adélia, vê se