My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Página 70
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proibir a entrada de jornalistas lá, para evitar que a sujeira que acontecia por debaixo dos
panos vazasse. É que a repressão, quando acontece, é generalizada. Adélia conseguiu um
habeas corpus e podia entrar quando quisesse. Os agentes a viam chegando e faziam sinal
um para o outro: “Sujou”.
De coisas assim que ela se lembra, a vez que noticiou um pé de maconha na delegacia. Virou
manchete, algo como “delegado cultiva maconha na antessala”. No dia seguinte, o pé da
planta sumiu. Ela ajudou a desconstruir a ideia de que pauta estava só no livro de
ocorrências: houve um assalto, um arrombamento, roubaram galinha…
Às vezes, negociava com o delegado, perguntando se não tinha acontecido nada de diferente
na madrugada. Às vezes, os próprios agentes ajudavam. Os meninos que trabalhavam na
editoria policial namoravam prostitutas, e aí já passavam a noite de olho no que acontecia.
Ela descobria na raça.
Adélia foi a substituta de Terezinha Cardoso, primeira repórter policial do país. Terezinha saiu
porque queria explorar a área cultural. Do submundo para os palcos. Encontrou guarida foi
no jornalismo de saúde, que considerava o seu melhor momento.
Uma outra história das boas foi a vez que, numa ronda para caçar pauta policial, Adélia foi
para a Penitenciária de Piraquara. E estava usando minissaia. No meio da entrevista, ouviu
uma barulheira, começou um rumor, uma bateção de grade. Aí o agente foi falar com o
diretor da penitenciária – “é porque a repórter está aqui”. Adélia pensou que era porque
queriam denunciar alguma coisa, mas não: era porque ela tinha passado pelas grades
usando minissaia. Foi quase uma rebelião.
No âmbito da moda, nunca se considerou fashion. Adélia Lopes estava mais para o
movimento hippie. Camisa listrada, macacão, jeans, minissaia. Às vezes, andava descalça. Um
dia tentou se arrumar “mais bonitinha” e a chamaram de bibliotecária. Desistiu.
Em um dos aniversários do Estadinho, os chefões a chamaram num canto: “Adélia, vê se