My first Magazine A Luta Bebe Cerveja - Ana Sens | Página 69
A LUTA BEBE CERVEJA
Mesmo com a coisa se flexibilizando informalmente com o passar dos anos, os garçons
continuaram sob orientação de não atender mulher sozinha depois da meia-noite. Por isso a
coisa só mudou mesmo depois de 1984, ou talvez da mudança de endereço.
Mas até lá, para entrar tinha sempre que estar com a presença masculina, e por isso se
mulher queria ir ao bar, ia em grupo. Como a rotina era que todos saíssem da redação mais
ou menos no mesmo horário (menos os diagramadores...), iam em bando para o bar. Foi no
final dos anos 1960 que esse bando passou a ganhar mais
rostinhos femininos.
“A gente começou a ir nos bares e nos sentíamos à vontade nos
bares”, lembra Adélia, frequentadora assídua dos botecos. Ainda
que inconsciente, rolava de tudo um pouco entre elas para ganhar
o espaço e dizer “eu posso estar aqui também”. Tinha que ser forte
para ser aceita. “A gente imitava o pior lado dos meninos, que é
fumar, beber, falar alto, xingar, falar palavrão. Foi isso aconteceu
com a gente”, ela explica.
Tinha que
ser forte
para ser
aceita
Apesar disso, as meninas eram bem quistas pelos jornalistas.
Todo mundo era muito próximo, justamente pelas dificuldades da
profissão non-grata, e do governo também. E aí elas foram
tomando espaço, a ponto de serem maioria no ramo atualmente.
Adélia Lopes foi a primeira jornalista mulher a trabalhar em rádio, na Rádio Iguaçu. Por
coincidência, também foi seu primeiro emprego. Depois foi para a televisão e aí para o jornal
impresso, onde assumiu o posto de repórter policial de O Estado do Paraná, migrando depois
para a cultura, editoria na qual fez história.
E como repórter policial enfrentou poucas e boas em nome da pauta. Entrevistar viúva em
velório, visitar o Instituto Médico Legal, pernoitar na delegacia. Teve uma época que queriam
58