tribuições de bens alimentares e não
alimentares (roupa, mantas, utensílios
de cozinha), vi um mundo muito duro,
mas muito real, onde um sem-número
de pessoas, sujeito à indiferença dos
holofotes da comunicação social, vive
de forma inimaginavelmente pobre.
No meio de tanta desgraça trazida pelo
ciclone Idai, há uma lição que não pode
ser esquecida: os moçambicanos, pelo
menos a julgar pelos de Dombe, são
fortes e resilientes. Viveram momentos
de dificuldade extrema, deram à luz em
cima de árvores, agarraram-se à vida
em telhados e em braços de vegetação,
que compartilharam com cobras e ou-
tros animais, viram familiares a serem
levados pelas enxurradas, mas, com a
ajuda possível, estão a reconstruir as
suas vidas e a recuperar a sua saúde.
E sente-se que, passo a passo, vão ca-
minhando no sentido certo. Porém, as
cenas e os relatos, que mais me impres-
sionaram, foram os que envolviam as
mulheres e são elas que, sem dúvida,
têm tido um papel preponderante para
que a vida das suas famílias e das suas
comunidades se vá aproximando daqui-
lo que era o normal antes do ciclone -
por muito que essa normalidade possa
ser questionada.
A mulher moçambicana é um misto de
fortaleza e de beleza. No entanto, ser
mulher em Moçambique não é fácil,
muito menos ainda em zonas rurais,
assentes em modelos tradicionais e com
pensamentos muito machistas, como se
verifica em Dombe.
No geral, a mulher não tem voz, nem
espaço. É submissa e dependente dos
homens da família. Tem o percurso es-
colar várias vezes comprometido por
ter de casar demasiado cedo, não raras
vezes com homens muito mais velhos,
sendo mais uma, entre várias esposas.
Mas é ela que carrega a água e a lenha
à cabeça, com o filho amarrado às cos-
tas. É ela que vai ao rio lavar a roupa de
toda a família, que cozinha, que trata
das crianças, que leva os filhos desnu-
tridos às consultas, que trabalha na ma-
chamba.
Tive a oportunidade de conversar com
algumas destas mulheres, que me fo-
ram confidenciando as suas dificulda-
des, a sua vontade em terem estudado
mais, o desejo em terem um verdadeiro
casamento, de viverem na sua casa com
o marido. Mulheres com sonhos, que
muitas vezes ficam escondidos atrás das
suas capulanas!
E sobre sonhos, ninguém melhor para
os alimentar e tocar no coração do que
a Selma Uamusse, que foi acompanhar
o trabalho da Helpo no Dombe, no
seguimento do concerto solidário rea-
lizado em Portugal. Para mim, este foi
também um momento muito marcante,
e posso afirmar que fiquei duplamente
fã. Se já o era, na sua faceta de cantora,
cujo concerto tinha ido ver à Casa da
Música, precisamente uma semana an-
tes do ciclone Idai ter assolado a Região
Centro de Moçambique, fiquei também
fã em termos pessoais, pela pessoa ma-
ravilhosa que é. A Selma é da paz. É da
bondade. A sua ida ao Dombe levou às
pessoas algo de muito precioso num
contexto pós ciclone: alegria, reconheci-
mento e esperança!
Durante os três meses de missão fiquei
alojada na casa das Irmãs do Instituto
das Pequenas Missionárias de Ma-
ria Imaculada o que, de certo modo,
constituiu um desafio para ambas as
partes. O receio inicial relativo à minha
integração, deu lugar a um sentimento
de grande compreensão e afinidade. As
Irmãs tiveram a humildade e a humani-
dade de me acolherem de braços aber-
tos, como elemento da sua “família”,
fazendo sempre com que sentisse que
aquela casa tinha passado também a
ser minha!
A bondade e o amor das Irmãs, que
decidiram viver longe da sua família,