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 ESPECIAL EMERGÊNCIA “o Dombe não é um lugar. É um sentimento”. Porto, Liliana Granja “ Isto é Dombe”, ouvi dizer a Irmã Mirian, minutos depois de termos sido apresentadas. Na altura, não compreendi exatamente qual o sentido daquela expressão que, invariavelmen- te, a fui ouvindo proferir, a propósito das mais diversas situações. Só à me- dida que os dias foram caminhando na linha do tempo dos três meses que estive em missão, fui capaz de entender o tanto que significa “Isto é Dombe”. Ora para ilustrar uma situação carica- ta e inusitada, ora para descrever uma situação de desânimo e conformismo, de quem não tem meios para fazer mais e melhor… A este propósito, e por estar em Mo- çambique à data da morte da escritora Agustina Bessa-Luís, veio-me à memória uma frase sua, que usou para descre- ver o Porto, a cidade que, como eu, escolheu para viver - “o Porto não é um lugar. É um sentimento”. E com todo o respeito, sinto a tentação de me apode- rar desta frase, ousando introduzir-lhe uma alteração, pois também para mim “o Dombe não é um lugar. É um senti- mento”. Os meus três meses em Moçambique foram carregados de emoções e desa- fios, que começaram precisamente na partida, com uma viagem preparada em menos de 48h, e se mantiveram até ao regresso. Aliás, mantêm-se mesmo de- pois do regresso. No altruísmo de quem participa nestes projetos, há sempre um egoísmo muito maior, e não me posso dar à veleidade de não assumir que trouxe na minha mala muito mais do que levei e que vim imensamente mais rica do ponto de vista profissional, pes- soal e emocional. Conciliar o que se deixa para trás e o que se tem pela frente, é também um exercício interior permanente, uma ten- tativa de compatibilizar estes dois mun- dos, tão diferentes e assimétricos! Num dia, trabalho com crianças e mulhe- res desnutridas; dias depois, trabalho com crianças e mulheres obesas. Num dia, invento receitas de elevado valor calórico com os poucos alimentos dis- poníveis; dias depois, crio menus light procurando travar o consumo alimentar excessivo. O trabalho realizado durante estes 90 dias foi muito intenso, com várias exi- gências a nível físico, mental e emocio- nal. Sinto que fui, e outros continuarão a ser, as mãos da solidariedade de tan- tos portugueses, que foram chamados a participar nesta ajuda à população de Moçambique e que, de forma tão gene- rosa, deram o seu contributo! No âmbito das atividades na área da nu- trição materno-infantil, dediquei-me a tratar das crianças e mulheres grávidas e lactantes com desnutrição, da melhor forma que soube. Muitos foram os ca- sos de sucesso, sobretudo de crianças que, no final do tratamento, pareciam ter adquirido um novo rosto e feições, tal era a diferença depois do ganho de peso e melhoria da sua saúde. Mas, pelo caminho ficaram também algumas derrotas, sempre difíceis de aceitar. Nas visitas às comunidades, para rea- lizar os rastreios nutricionais e as dis-