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 EDITORIAL uma marca que pousou sobre tudo. Cascais, Joana Lopes Clemente N o passado mês de julho visitei Moçambique. Um Mo- çambique diferente daquele que tinha visitado ante- riormente dezenas de vezes. Um Moçambique agora refém de um chavão de retorno à normalidade. Um retorno esperado e desejado após a passagem fugaz e destruidora de dois furacões que arrasaram o centro e norte do país, ceifando a vida a mais de 650 pessoas e deixando um rasto de devastação que é difícil resumir em palavras. Visitei escolas cujas aulas prosseguiram em salas sem co- bertura e aldeias em cujo quotidiano prossegue encaixado dentro de tendas. Tudo, embrulhado em esforço de retorno à normalidade. Esse retorno faz-se, a espaços e com o peso de quem transporta uma história difícil de lembrar, (imagi- ne-se de contar), mas não se vai fazendo sem custos. A passagem de dois ciclones marcou em profundidade a vida a quase 3 milhões de pessoas e marcou de forma inde- lével a Helpo, o nosso olhar, a nossa atividade, as pessoas que são as nossas mãos e voz no terreno. Com o passar dos anos, começamos a pensar que já vimos e vivemos alguma coisa e que já ganhámos algum calo, mas não se prevê um puxão de tapete como este! Em Moçambique há um “antes” e um “depois” da passa- gem dos ciclones. Em nós, também. Durante 4 meses, hou- ve um profundo direcionamento dos recursos humanos e materiais para as zonas afetadas e também do ponto de vista organizacional, observamos agora um esforço desse retorno à normalidade. Um esforço de readaptação a uma rotina diária onde precisa de caber tudo o que já cabia e so- mar a esse todo uma população imensa que vive num limbo entre um risco e outro: à vulnerabilidade de uma pobreza extrema, veio juntar-se um conjunto de novas vulnerabilida- des associadas à devastação que o país conheceu. Aos pés de uma população que vivia em crise, estendeu-se um de- serto de terra infértil e despida, sem casas, cultivos, escolas, gado, barragens e furos. Tudo o que podia ser destruído foi destruído e agora a reconstrução procura-se, sendo cer- to que antes de plantar, é preciso que a terra esteja pronta para dar frutos. O pós-emergência é, assim, feito de uma mistura de norma- lidade, esperança, frustração, urgência, espera e indefinição. E é esta amálgama de sensações que vamos acarinhando em nós como um espetador atento ao mesmo tempo que continuamos a trabalhar em tudo o que pode e deve ser feito já! Parte deste caminho, conhecemos e galgamos com segurança e outra parte é feita de um nevoeiro espesso e incógnito, no meio do qual vamos desenhando passos cau- telosos, conscientes de que onde há fragilidade há riscos, mas há também necessidades às quais não podemos ser in- diferentes! O que veio em março e abril veio em modo avassalador, de braços escancarados e a abarcar tudo o que encontrou à sua passagem e essa passagem deixou uma marca, e essa marca passou a fazer parte de nós.