Mod.1 História Cederj 1 | Page 91

CAPÍTULO 8:: 91
Com mais intensidade desde o século XV, os contatos entre Europa, África e Ásia se estabeleceram de forma contínua. Contudo, a presença europeia se concentrava nas regiões litorâneas, sem penetrar no interior dos continentes africano e asiático. Também não havia o governo direto de um país europeu sobre a população nativa, exceto em poucas regiões. Acordos entre autoridades políticas africanas ou asiáticas e europeias haviam garantido, na maior parte das vezes, as condições necessárias ao desenvolvimento das trocas comerciais.
Na segunda metade do século XIX, porém, há uma transformação importante nesse cenário. Os países europeus passaram a implementar uma política diferente, buscando estabelecer uma dominação sobre vastas regiões da Ásia e África que tinha um caráter político, militar e econômico. Algumas áreas foram formalmente anexadas, fazendo parte de um império. Outras foram subordinadas economicamente, colocandose como áreas de influência europeia sem, no entanto, transformar-se em colônias.
Para entender as razões do processo de expansão imperialista, um caminho interessante seria pensar em certas mudanças econômicas e sociais que debatemos, como, por exemplo, o desenvolvimento das tecnologias relacionadas ao transporte e à comunicação. Isso permitiu que regiões antes consideradas distantes da Europa passassem a ser vistas como áreas que podiam ser incorporadas à sociedade capitalista.
Essa incorporação se desenvolveu, a partir do século XIX, devido a razões econômicas, políticas e, também, culturais. Em termos econômicos, a Ásia e a África ofereciam muitas vantagens aos europeus. Havia a sempre presente busca por metais – ouro, prata, cobre – e pedras preciosas, que foram encontrados no sul do continente africano; havia os valiosíssimos produtos de luxo fabricados na China, como tecidos e porcelanas, que poderiam dar enormes lucros aos comerciantes estrangeiros se estes tivessem livre acesso a esse país; havia a produção de mercadorias como chá, café e frutas tropicais, que poderia abastecer o mercado consumidor europeu e norte-americano; havia as matérias-primas, sem as quais as empresas capitalistas não poderiam se manter, como era o caso da borracha na região do Congo, na África central, e na Ásia, que abasteceu a indústria automobilística em crescimento; havia também as reservas de petróleo localizadas no Oriente Médio; e, por último, havia ainda milhões de pessoas que, como os indianos, poderiam se transformar em mercados consumidores para os produtos industrializados.
Como estudamos no item anterior, o capitalismo sofreu transformações em fins do século XIX que levaram ao estabelecimento de políticas protecionistas pelo Estado para favorecer as indústrias nacionais. Nesse sentido, era importante que cada país conseguisse vantagens comerciais e assegurasse a suas empresas o acesso a matérias-primas no mundo não desenvolvido. Por isso, a expansão para áreas dos continentes africano e asiático. Ao mesmo tempo, era necessário impedir a entrada de outros países na mesma região, o que significava implantar uma dominação política e militar. Por isso, para entender o imperialismo, não devemos separar a ação econômica da ação política.
Como se tratava de uma disputa entre Estados, a corrida imperialista sobre a Ásia e a África resultou, muitas vezes, no crescimento da rivalidade entre os europeus. Alemanha e Itália, por exemplo, cujos processos de industrialização se desenvolveram mais tarde, reivindicavam uma nova divisão das colônias e áreas de influência que lhes garantisse uma melhor posição diante de outras potências capitalistas. Isso porque a força e o prestígio de um país passaram a estar intimamente ligados à posse de colônias e áreas de influência em outros continentes. Portanto, podemos afirmar que as disputas entre os países também foram um elemento importante para detonar a expansão imperialista sobre os continentes africano e asiático.
Muitas vezes, o apelo nacionalista foi utilizado para conseguir o apoio das populações europeias à ação governamental e empresarial na conquista de colônias. Se o Império britânico, que se estendia sobre Europa, Ásia e África, enchia os bolsos de industriais e banqueiros, também enchia os olhos de homens e mulheres que nunca haviam saído de sua cidade, na Inglaterra, e não tinham nenhuma relação com a Índia ou o Sudão. Porém, sentiam-se felizes com o poder de sua nação, expresso nas áreas dominadas. O sentimento patriótico ligou-se ao imperialismo, justificando guerras, gastos do governo e a exploração de outros povos.
A política imperialista baseou-se também na defesa da superioridade do homem branco sobre os povos africanos e asiáticos. Essa ideologia possuía aspectos religiosos, culturais e raciais. Para os europeus e norte-americanos, o desenvolvimento econômico de seus países, com a evolução científica e a criação de novas tecnologias, era um aspecto que demonstrava suas capacidades superiores, em comparação com africanos e asiáticos.
O discurso racista que se desenvolveu no século XIX pregava a existência de raças biologicamente diferentes, que possuíam capacidades diversas. De acordo com esse pensamento, o homem branco, cristão, europeu ou descendente dele pertencia a uma raça superior. A partir dessa posição superior, o“ homem civilizado” tinha uma missão: conduzir as raças inferiores ao progresso, transmitindo os valores culturais e as conquistas materiais e técnicas do ocidente. Leia o que dizia o político francês Jules Ferry sobre esse assunto, em 1885:
As raças superiores têm um direito perante as raças inferiores. Há para elas um direito porque há um dever para elas. As raças superiores têm o dever de civilizar as inferiores [...]. Vós podeis negar, qualquer um pode negar que há mais justiça, mais ordem material e moral, mais equidade, mais virtudes sociais na África do Norte desde que a França a conquistou? A religião não ficou de fora desse processo e, durante todo o século XIX, houve um intenso trabalho missionário cristão, que buscava converter os povos dominados às Igrejas europeias – com exceção da Índia e das regiões islâmicas. Aceitar o cristianismo era, para os colonizadores, um importante passo no caminho dos povos“ atrasados” e“ primitivos” até a civilização. Desta forma, o imperialismo significou também a imposição aos povos dominados de valores, religiões e imagens do“ homem civilizado”.
O domínio político
Como resultado de todos os fatores relacionados acima, a partir da década de 1830, mas com muito mais força nos anos compreendidos entre 1875 e 1914, países estrangeiros avançaram sobre os continentes africano e asiático, impondo seu controle sobre as populações nativas. Esse processo se desenvolveu de formas diferentes, de acordo com as condições internas de cada região e os interesses de cada potência imperialista. A dominação política em algumas regiões assumiu a forma de um governo direto sobre as colônias, chefiado por funcionários europeus. Em outras, o controle político permaneceu na mão de autoridades africanas ou asiáticas, sob a supervisão de uma nação europeia.
É importante ressaltar que, se a divisão da África e Ásia ocorreu durante o século XIX, na maioria das regiões foi somente no início do século XX que a penetração europeia se intensificou, ocupando o interior dos continentes.