Mod.1 História Cederj 1 | Page 78

78 :: H ISTÓRIA :: M ÓDULO 1 Na França do século XVIII, as pessoas se dividiam em três ordens ou Estados. O Primeiro Estado era formado pelo clero, ou seja, pelos sacerdotes da Igreja Católica, que era a religião oficial. Entre eles, podemos encontrar o alto clero, formado por bispos, cardeais, arcebispos e o papa, geralmente nascidos entre a nobreza. Eram eles que controlavam as riquezas da Igreja, incluindo as terras que ela possuía e os impostos que recebia dos fiéis – principalmente o dízimo eclesiástico. Do Primeiro Estado também faziam parte os padres das paróquias, espalhados por todo o reino. Juntos, eles formavam o baixo clero, cujo estilo de vida era muito semelhante ao dos camponeses e habitantes das cidades, que enfrentavam grandes dificuldades para conseguir sobreviver. Além do poder econômico, a influência cultural da Igreja na sociedade era muito grande, especialmente sobre os 75.000 alunos que estudavam em seus colégios. O Segundo Estado era formado pela nobreza, dona de parte importante das terras do reino. Grande parte dos nobres se sustentava com os impostos pagos pelos camponeses que utilizavam suas terras e com a cobrança de taxas que existiam desde os tempos do feudalismo. Era o caso da corveia, por exemplo, de acordo com a qual os camponeses deveriam trabalhar gratuitamente por um tempo nas terras dos nobres. A nobreza também garantia sua posição social superior ocupando importantes cargos na burocracia, que lhes garantiam rendas e poder de influência, e recebendo pensões do Estado. No Terceiro Estado, estavam reunidos os grupos sociais restantes. Os grandes burgueses, donos de bancos e companhias comerciais; os empresários rurais, que produziam artigos agrícolas para vender no mercado; os artesãos das manufaturas, trabalhadores e pequenos comerciantes das cidades; e os camponeses, que representavam a maior parte da população. Com diferentes profissões e vivendo de forma muito desigual – encontramos nesse Estado desde o rico banqueiro até o camponês pobre –, esse Estado correspondia a cerca de 95% da população francesa. Não havia, nessa época, a crença de que todas as pessoas eram iguais ao nascer. Muito pelo contrário, a divisão da sociedade em três Estados era feita levando-se em consideração o nascimento. Caso uma pessoa nascesse numa família de nobres, pertenceria ao Segundo Estado durante toda a sua vida. No caso de nascer entre os camponeses, seria um membro do Terceiro Estado com poucas chances de mudança – a não ser que se transformasse num sacerdote. Ainda assim, era muito difícil que um camponês ou pobre da cidade conseguisse alcançar uma posição importante na Igreja. Provavelmente, ele pertenceria ao baixo clero. O nascimento de alguém delimitava, assim, seu lugar e suas possibilidades na sociedade. Pertencer ao Primeiro ou Segundo Estados não significava apenas ter uma posição de prestígio e riqueza, mas também possuir uma série de privilégios importantes para definir quem era quem. Um desses privilégios era a isenção do pagamento de impostos. Assim, apesar de controlarem uma parte importante da riqueza do país, o clero e os nobres não contribuíam para o Estado. Este era um dever do Terceiro Estado. A nobreza possuía também outros privilégios, como o monopólio de cargos mais altos no exército, na marinha e na magistratura (formada por juízes). Assim, eram os membros do Terceiro Estado, e entre eles os quase 80% da população formados pelos camponeses, que sustentavam a sociedade francesa através de seu trabalho e dos impostos que pagavam. E estes não eram poucos. O camponês, por exemplo, devia pagar o dízimo à Igreja, os impostos aos nobres e ao rei. Com isso, vivia com os pouquíssimos recursos que restavam e não tinha nenhum tipo de estoque para épocas difíceis. Caso acontecesse algum problema com as colheitas, ele e sua família estariam à beira da fome e sem condições de comprar no mercado os alimentos suficientes para sobreviver. Era muito comum que nesses momentos, surgissem revoltas camponesas. Os armazéns de alimentos eram atacados e saqueados pelos camponeses, que exigiam que os funcionários do rei tabelassem o preço do pão ou distribuíssem alimentos aos famintos. A situação dos trabalhadores urbanos não era diferente. Recebendo um salário baixo e pagando impostos, esse grupo também vivia com poucos recursos e dependia do fornecimento do pão para sobreviver. Quando ocorria uma quebra de colheitas, os preços dos alimentos vendidos nas cidades subiam muito e era quase impossível conseguir comprar o pão diário. Os homens que pertenciam à alta burguesia, enriquecidos com as atividades comerciais e bancárias, tinham um outro estilo de vida e não enfrentavam dificuldades para garantir sua sobrevivência. Muito pelo contrário. Entretanto, estavam insatisfeitos com o fato de que, muitas vezes, ocupavam um espaço menos importante que os nobres na política e no Estado, o que prejudicava seus interesses. Para algumas famílias burguesas, a solução para esse problema era tentar penetrar no Segundo Estado através do casamento... Entretanto, no século XVIII, foram crescendo as críticas da burguesia a essa estrutura social, às diferenciações determinadas pelo nascimento e à maneira como o Estado tentava controlar as atividades econômicas, interferindo em seus negócios. A França às vésperas da Revolução Foi a partir dessa estrutura social desigual e fortemente hierarquizada que os problemas começaram a crescer na França, a partir da segunda metade do século XVIII. O maior deles, e que concentrou a atenção de muitos homens, foi a crise do Estado francês. A causa da crise era bastante simples de ser definida, mas muito difícil de ser resolvida: faltava dinheiro ao rei para pagar todos os compromissos assumidos. Apesar de cobrar impostos de todo o Terceiro Estado, muitas vezes o rei tinha dificuldades em fazer com que os recursos chegassem às suas mãos. Seus funcionários muitas vezes não conseguiam estar presentes em todas as partes do reino ou, ainda, podiam eles mesmos desviar uma parte do dinheiro arrecadado e, na falta de uma fiscalização eficiente, não serem punidos. Gastando mais do que arrecadava desde fins do século XVII, o Estado francês passou a recorrer a empréstimos bancários para se sustentar. Com o passar do tempo, a situação foi se agravando. Na segunda metade do século XVIII, a França se envolveu em conflitos armados, como a Guerra dos Sete Anos contra os ingleses (1756–1763), e o apoio aos colonos norte- americanos que lutavam pela sua independência da Inglaterra. A participação nessas guerras aumentou muitíssimo a dívida do Estado francês que, a partir da década de 1780, encontrava-se em situação de “falência”. Vários ministros das finanças de Luís XVI, rei francês à época, tentaram encontrar soluções para a situação, sugerindo mudanças na forma de cobrar os impostos. Ora, se o problema era dinheiro, diziam alguns nobres, era necessário retirar mais recursos da população. Entretanto, como o Terceiro Estado já arcava sozinho com os impostos, surgiram propostas de que também o Primeiro e Segundo Estados passassem a fazer algum tipo de contribuição ao Estado, indicando a