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comercial( embora não melhor) que o pequeno mestre [...]. A consequência foi sua rápida ruína, ao passo que os maiores capitalistas triunfaram com sua queda, pois representavam o único obstáculo para o completo controle sobre os trabalhadores.( Thompson, E. P. A formação da classe operária inglesa: a maldição de Adão. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2004.)
Nesse breve relato, temos uma série de informações que nos ajudam a entender as mudanças que resultaram do aparecimento do sistema fabril. Em primeiro lugar, vamos discutir o que aconteceu com as formas até então existentes de produzir mercadorias. Segundo nossa fonte, a produção de tecidos antes das fábricas dividia-se em algumas etapas. A primeira era a limpeza e a transformação do algodão e da lã em fios, feita principalmente pelas mulheres em suas casas. Era a chamada indústria doméstica. Depois, as manufaturas recebiam esses fios e se encarregavam da tecelagem, dividindo a produção em algumas tarefas e utilizando máquinas e instrumentos que eram movidos pela energia humana. Todavia, essas duas formas de produção sucumbiram diante das fábricas.
De acordo com o trabalhador inglês, isso aconteceu porque o tecido produzido pelas fábricas era mais comercial, com o qual as manufaturas não podiam concorrer. Por isso, elas foram à ruína e todos os trabalhadores, incluindo os donos e as mulheres que fiavam em casa, ficaram sem emprego e sem suas pequenas oficinas. Para sobreviver, qual era a única saída? Tentar arranjar um trabalho nas fábricas. O resultado deste processo foi a transformação de uma série de pessoas, que antes tinham ocupações diferentes, em operários. A partir daí surge um novo grupo social, formado pelos trabalhadores das indústrias.
Se, por um lado, houve o aumento do número de operários industriais, o relato do trabalhador inglês também nos informa que era muito pequeno o número de homens que conseguiam implantar uma fábrica. Para isso, era necessário possuir um grande capital para a compra de máquinas e a construção dos edifícios, e poucas pessoas tinham condições financeiras de fazer esse investimento. Mas, uma vez que conseguissem, tinham à sua frente a possibilidade de obter lucros fabulosos. Assim, ao lado dos milhares de operários, a Revolução Industrial também criou outro grupo social pouco numeroso, formado pelos ricos donos das fábricas, que chamamos de burguesia industrial.
Lendo atentamente o documento histórico, também podemos obter pistas sobre as novas máquinas presentes nas fábricas. Para o operário inglês, elas eram“ terríveis, demônios”, pois não só substituíam o trabalho humano, mas também exigiam um novo tipo de ação do trabalhador. Movida pela energia a vapor, era a máquina que comandava o ritmo do trabalho dentro das fábricas, obrigando o operário ou a operária a se sujeitar a ele – ao contrário do que acontecia nas manufaturas, onde o trabalhador controlava a máquina. Além disso, dentro das fábricas a produção era dividida em etapas e cada operário ficava responsável por uma delas, aprendendo apenas uma parte da fabricação de uma mercadoria.
O surgimento do mundo das fábricas foi caracterizado por uma grande exploração do trabalhador. Os salários pagos aos operários eram muito baixos e a utilização em larga escala da mão de obra infantil e feminina ajudava a diminuílos ainda mais. As jornadas de trabalho podiam chegar a 16 horas diárias, com pequenos intervalos para descanso e alimentação, fosse para as crianças, mulheres ou homens. E, nessa época, não havia nenhuma lei de proteção aos operários.
Como se não bastasse, as condições de trabalho eram as piores possíveis. Nas fábricas, não havia ventilação ou iluminação adequadas e, muitas vezes, os produtos químicos utilizados na produção das mercadorias causavam sérias doenças aos operários. Veja como o historiador W. Henderson descreveu a vida dos primeiros operários:
O novo sistema industrial arruinou a saúde de muitos trabalhadores. Quase todas as indústrias tinham as suas doenças características e as suas deformidades físicas. Os oleiros, os pintores e os cortadores de arame sofriam de envenenamento pelo chumbo; os mineiros, de tuberculose, de anemia, de vista, e de deformações da espinha; os afiadores, de asma; os fiandeiros, de perturbações brônquicas; os fabricantes de fósforos, de envenenamento pelo fósforo. Jules Simon, escrevendo sobre as fábricas francesas declarou:“ Os visitantes não podem respirar nesses tristes lugares.” [...] A expectativa de vida dos trabalhadores das fábricas e dos mineiros era pequena.
[...] As queixas mais sérias dos operários das fábricas e das minas referiam-se a excessivas horas de trabalho, salários baixos, multas, e ao sistema de permuta segundo o qual os patrões pagavam em gêneros( produtos) e não em dinheiro. Os homens, as mulheres e as crianças trabalhavam doze horas ou mais por dia e estavam geralmente exaustos quando regressavam a casa. Visto a certos patrões interessar que as máquinas trabalhassem continuamente, introduziram-se turnos noturnos em algumas indústrias. O número de dias de trabalho no ano aumentava. Por vezes o domingo era dia de trabalho também, apesar dos protestos das igrejas. Nos distritos onde os aprendizes costumavam ter as segundas-feiras livres, os patrões faziam o possível por abolir esse hábito. E, nos países católicos, os dias santos eram gradualmente reduzidos nas fábricas. Além disso, após a Revolução Industrial, um operário tinha às vezes de percorrer uma considerável distância a pé para chegar à fábrica, enquanto sob o anterior sistema doméstico trabalhava em casa.( Henderson, W. O. A Revolução Industrial. São
Paulo: Verbo / Ed. da USP, 1979.)
Muitos estudiosos da Revolução Industrial buscaram entender as razões que levaram os comerciantes a investir seu capital na implantação das fábricas. À primeira vista, a busca do lucro parecia ser a resposta mais adequada, pois, ao comprar máquinas modernas e que produziam com mais rapidez, o empresário conseguiria aumentar sua produtividade e seus ganhos. A motivação econômica, portanto, justificaria o investimento em indústrias.
Entretanto, alguns historiadores chamam a atenção para outro elemento: a intenção dos empresários de controlar totalmente o processo de produção e os trabalhadores. Para desenvolver essa ideia, vamos voltar à primeira fonte, o relato do trabalhador inglês. Ele afirma que o algodão era fornecido às mulheres, que trabalhavam em casa, depois a matéria-prima era encaminhada às oficinas encarregadas da fiação e tecelagem e, só então, os tecidos chegavam às mãos dos comerciantes para a venda.
Ora, nesse sistema, o comerciante não dominava nem a produção nem os trabalhadores. As mulheres, em suas casas, trabalhavam e produziam num ritmo decidido por elas e o mesmo acontecia nas oficinas. Assim, o comerciante encontrava sérias limitações para controlar a produção das mercadorias. Tinha dificuldades, também, para impor padrões de qualidade e fiscalizar o aproveitamento adequado da matéria-prima. Ele se encontrava distante dos trabalhadores!
Na fábrica, no entanto, onde todas as etapas da produção estariam reunidas num mesmo local, esses problemas acabariam. Ali, os operários teriam suas