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CAPÍTULO 7:: 75 inalterada, o que significava defender seu poder absoluto e a posição e os privilégios da nobreza. Porém, em algumas áreas como a administração pública e a economia, esses homens buscaram introduzir técnicas mais modernas e racionais, que levariam ao desenvolvimento de seus países.
Assim, com um público leitor formado por homens de diferentes origens sociais, com profissões e estilos de vida distintos, as novas ideias dos filósofos alcançaram toda a Europa. Os princípios iluministas estiveram presentes tanto em movimentos que provocaram reformas específicas em sociedades europeias quanto em processos de mudança mais radical, como a Revolução Francesa, que veremos ainda neste capítulo.
A Revolução Industrial
Enquanto as ideias iluministas se espalhavam pelo continente gerando muitas discussões, um outro importante processo de transformação ocorria na Inglaterra, ganhando força a partir da década de 1780: a Revolução Industrial.
Geralmente, quando falamos em Revolução Industrial, somos levados a pensar imediatamente em mudanças tecnológicas, com a introdução de novas máquinas que reorganizaram o processo de produção de mercadorias. Isso, de fato, ocorreu. Na produção de tecidos, a passagem do século XVIII para o século XIX registrou a adoção de novas máquinas de fiar e tecer movidas a energia a vapor, que aceleraram muito a velocidade de produção. Surgiram as fábricas, locais onde um empresário reunia as máquinas e os trabalhadores e organizava uma forma de produção diferente.
Porém, e este é o primeiro aspecto que devemos ter em mente, a Revolução Industrial deve ser entendida como uma mudança não só das técnicas de produção, mas como um processo que criou uma nova sociedade. Ela foi, acima de tudo, um processo de transformação radical que atingiu a economia, a política, as ideias e as estruturas sociais. Seu ponto de partida foi a Inglaterra. Vamos discutir as razões desse pioneirismo inglês.
Inglaterra, o início da sociedade industrial
No início do século XVIII, a Inglaterra ocupava uma posição de grande destaque entre os países europeus. Seus navios transportavam uma parte considerável das mercadorias trocadas entre vários continentes, incluindo escravos africanos, especiarias vindas da Ásia, tecidos produzidos no próprio país e artigos originários das colônias americanas. As companhias comerciais inglesas atuavam em todos os cantos do planeta, tendo como principal aliado seu governo, sempre pronto para ditar novas leis ou fazer guerras que beneficiassem os negócios britânicos.
Além desse grande mercado exterior, a Inglaterra também tinha internamente um importante mercado consumidor. Isso acontecia porque, desde o século XVI e com mais força a partir do século XVII, muitos camponeses estavam perdendo as terras que cultivavam devido ao processo de“ cercamento” dos campos. A alternativa para sobreviver era a mudança para as cidades, onde precisariam comprar os alimentos e artigos necessários à sua sobrevivência. Para os proprietários de terra que se apropriaram das terras antes utilizadas pelos camponeses, um ótimo negócio era desenvolver atividades agrícolas e a pecuária de ovelhas para produzir alimentos e tecidos a serem consumidos pelos habitantes das cidades.
Ao perderem suas terras, os camponeses enfrentavam um outro problema: encontrar um trabalho para sobreviver. Um grande número de lavradores sem terras em busca de emprego é um sério problema para qualquer sociedade, mas, na Inglaterra do século XVIII, era também uma oportunidade para os empresários: os camponeses sem trabalho poderiam servir como mão de obra para as primeiras indústrias. E, como havia muitas pessoas em busca de uma atividade para sobreviver, não era preciso pagar altos salários a esses trabalhadores.
Assim, empregando o capital acumulado com os lucros obtidos nos mercados internacional e nacional, muitos comerciantes ingleses começaram a investir na construção de fábricas. Alugando ou comprando um grande galpão, instalavam máquinas movidas a energia a vapor e contratavam a mão de obra dos desempregados, reunindo mais de 500 trabalhadores no mesmo local. Desta forma, você pode perceber que há uma relação muito próxima entre as mudanças ocorridas no campo e o surgimento de uma sociedade industrial.
Por fim, a Inglaterra ainda tinha à sua disposição grandes reservas de carvão e ferro, muito importantes para garantir o fornecimento da energia a vapor e a matéria prima para construção de máquinas, ferrovias, trens e embarcações marítimas.
Das primeiras fábricas à sociedade capitalista industrial
Como já vimos, as primeiras fábricas surgiram na Inglaterra, em fins do século XVIII, no setor de tecidos, e rapidamente se espalharam pelo país, levando à destruição de outras formas de produção que, até então, eram responsáveis pela atividade têxtil.
Acompanhe esse processo através das palavras de um trabalhador inglês da cidade de Manchester, que viu de perto a chegada das fábricas e suas consequências no início do século XIX:
[...] Quando a fiação de algodão estava na sua infância, antes da implantação daquelas terríveis máquinas que substituíram o trabalho humano, chamadas máquinas a vapor, havia muitos dos então chamados“ pequenos mestres”( little masters) – homens que, com um pequeno capital, podiam adquirir algumas máquinas e contratar alguns empregados, entre vinte ou trinta homens e rapazes, cuja produção era levada ao mercado central de Manchester e colocada em mãos de intermediários. Esses intermediários a vendiam aos mercadores, sistema que permitia ao mestre fiandeiro permanecer em casa, trabalhando e dando assistência a seus trabalhadores. O algodão era sempre fornecido em estado bruto, dos fardos para as mulheres dos fiandeiros em suas casas, para que elas o aquecessem e limpassem, deixando-o pronto para o trabalho dos fiandeiros na fábrica. Assim, podiam ganhar oito, dez ou doze xelins por semana, sem deixar de cozinhar e dar atenção a suas famílias. Mas nenhuma está empregada dessa maneira, agora: todo algodão é partido e torcido por uma máquina a vapor, que é um demônio. Portanto, as mulheres dos fiandeiros não têm emprego, a menos que trabalhem na fábrica durante todo o dia naquilo que pode ser feito pelas crianças, por quatro ou cinco xelins semanais. Se antes um homem discordava de seu mestre, ele o deixava e podia empregar-se em outro lugar. Contudo, a fisionomia das coisas mudou em poucos anos. Surgiram as máquinas a vapor, exigindo um grande capital para sua aquisição e para a construção de edifícios suficientemente grandes para abrigá-las, juntamente com seiscentos ou setecentos trabalhadores. A energia do vapor produziu um artigo mais