CAPÍTULO 10:: 119 familiares ou pessoais. Mas, a terra para a maioria das comunidades nativas era de propriedade coletiva e não um bem a ser comprado e vendido. Em países em que leis de terras as transformaram em mercadorias, a situação social dos índios fez com que estes vendessem as terras e passassem a trabalhar para grandes proprietários. Ou então iam oferecer seus serviços nas cidades, sob formas precárias de trabalho.
Quando houve miscigenação entre índios e mestiços, os filhos dessas uniões tiveram que optar por aderir ao mundo dos brancos, esquecendo seus antepassados indígenas para serem aceitos, ou então, por manter-se vinculados ao mundo indígena e com isso sofrer por sua origem, sem ter acesso a cargos ou direitos.
As práticas religiosas indígenas também foram combatidas pela Igreja Católica, sendo vistas e classificadas com desprezo e preconceito. Nos novos governos depois da independência, tais práticas continuaram ainda a receber um olhar de censura e descaso, pois eram identificadas com o atraso e a selvageria. As práticas médicas e curativas( conhecimentos sobre propriedades de plantas e chás) vinculadas a essas religiões indígenas podiam até ser aproveitadas, mas de forma separada de seu conteúdo espiritual.
No entanto, em fins do século XIX, a necessidade de construir uma nação nesses países da América Espanhola e Caribe fez com que as elites intelectuais buscassem nos índios símbolos da pátria. Mas, nesses casos, não eram os índios reais que se valorizava – era um“ índio idealizado”, branqueado em suas atitudes e conduta, longe dos valores e da cultura nativa.
Os índios algumas vezes se defenderam fugindo, abrigando-se em regiões mais isoladas, onde criaram modos de vida próprios para sobreviver. Desta forma, resistiram não passivamente, mas de uma maneira ativa, afastando-se daquele mundo branco que os rejeitava, mantendo suas línguas e práticas ancestrais. Algumas comunidades optaram por ter com a sociedade branca e mestiça de seus países somente relações de troca distanciadas, levando seus produtos( artesanato, produtos agrícolas) para vender nas cidades.
Finalmente, foi a luta pela terra o que levou os indígenas a atitudes mais violentas nesse período. E nesses casos, sobre eles se deu a duríssima repressão dos governantes. Nada mais distante do“ índio símbolo da nação” do que um indígena rebelde, reivindicativo, valorizando a sua cultura e defendendo seus direitos.
E nos países da América espanhola independente, onde houve escravidão africana, como ficou a situação da população afrodescendente no pósindependência?
Em países do Caribe, como Cuba, a escravidão durou quase tanto como no Brasil, sendo que em Cuba a abolição chegou dois anos antes( 1886) do que no Brasil( 1888). Antes de Cuba, outras ilhas e países do continente americano haviam terminado com esse tipo de relação de trabalho, sob forte pressão inglesa. O fim da escravidão não significou garantir aos negros livres e libertos direitos de cidadão. Como a estrutura econômica não mudou, esses grupos permaneceram majoritariamente pobres. E ainda mais: práticas discriminatórias surgiram e vigoraram por muitas décadas, sustentadas no preconceito racial.
Mas, será que essa discriminação acabou com a presença das culturas negras nas Américas e Caribe? Certamente que não. As culturas afrodescendentes resistiram, assim como as culturas indígenas, encontrando formas de sobreviver e de colocar suas marcas na mesma sociedade que as rejeitava. Na alimentação, na medicina popular, no gosto musical, na maneira de vestir e de manifestar sua religiosidade permaneceram vivas as culturas e a sabedoria dos chamados“ povos de cor”. Nem o racismo como verdade científica, característico de fins do século XIX e começo do século XX, os destruiu.
::“ Racismo científico”::
������������ �� ������������ ��� ���� �� ����� �� ���������� de raças biologicamente constituídas, característica do pensamento científico dessa época. Esta expressão do racismo explicava a exploração e a situação social dos indígenas e dos afrodescendentes por supostas características físicas. Assim, atribuía aos chamados“ povos de cor”, por exemplo, uma predisposição natural para o trabalho pesado ou uma incapacidade de decidir por si próprio, entre outras justificativas para situações historicamente criadas.
Em países como México, Venezuela, Peru e Colômbia, entre outros, permaneciam, no pós-abolição, comunidades afrodescendentes com expressão de identidade própria – revelada em formas de produção, ritmos musicais e festividades típicas. Essas comunidades se localizavam na maioria das vezes em locais distantes dos centros urbanos. Algumas eram originadas de antigos quilombos. Em determinados casos, houve mistura com povos indígenas locais, mas se manteve a característica afrodescendente predominante.
Esses grupos não foram chamados a fazer parte da nova imagem de nação que os países da América espanhola e Caribe independentes queriam mostrar para si e para o mundo em fins do século XIX e início do século XX. Mas, ainda assim se fariam visíveis: na aparência, na insurgência, na rebeldia e nas expressões das culturas populares. O sonho de base racista das classes dominantes latinoamericanas e caribenhas no pós-independência não se fez realidade.
:: Síntese::
� � ������� �� ������� ��������� �� �������� �������� � �� graves contradições internas eram questões a serem enfrentadas no processo de construção das nações independentes na América ��������� � ������ ��������������
� � ������� �� ������� �������� �� �������� �� ����������� das estruturas econômicas e na força política das elites e dos chefes políticos locais;
� �� �������� �������� �� ��������� �� �������� ������� ��� economias, sobretudo no setor de serviços urbanos, e dos Estados ������ ���������� ������ ������� ���������� � ������������� política;
� �� ������������ ������� ���� ���������� �� ��������� tratamento dado às comunidades indígenas e afrodescendentes nestes países – eram, portanto, desigualdades com uma marca também racial e cultural.