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118:: HISTÓRIA:: MÓDULO 1
extensão territorial. Uma das razões era que ficava difícil impor uma autoridade central que fosse além dos interesses de mando de seus chefes políticos locais.
Esses poderosos eram muitas vezes os mesmos que comandaram os grupos armados na separação da metrópole e tinham sob seu controle econômico e político muitas pessoas em suas localidades. Depois de obtidas as independências, temiam perder seu poder se este fosse colocado sob uma autoridade mais ampla. Disputavam uns com os outros o comando de regiões menores.
Em alguns países da América Latina independente, surgiram lideranças de caráter local – os caudilhos. Os caudilhos tinham em geral uma história de mando militar e político. Além do poder econômico, a base de sua autoridade estava na formação de um clientelismo em que o respeito e o medo eram as duas faces da mesma moeda.
O abandono das populações rurais, a pobreza e o uso contínuo da violência geraram esses personagens, que não poucas vezes gozavam de um prestígio grande e eram vistos como os defensores das suas localidades. O preço por sua proteção era a lealdade e subserviência, e em geral eram admirados e obedecidos cegamente. O que chamamos de caudilhismo é o tipo de relação política mantida entre um líder caudilho e seus seguidores.
Houve exceções, como o México e a Argentina, que conseguiram manter boa parte do que antes era o Vice Reino de Nova Espanha e o Vice Reino do Rio da Prata( ver mapa no capítulo 9), graças ao poder de suas classes dominantes e às suas alianças com chefes locais( caudilhos, no caso da Argentina).
Do ponto de vista econômico, as regiões da América Latina e Caribe tinham pouca relação entre si. O mercado interno era insuficiente para sustentar uma produção que não dependesse tanto do mercado externo. As atividades econômicas mais rentáveis eram as voltadas para a exportação, e eram os donos do poder político e econômico os maiores interessados na manutenção desse modelo.
Não houve mudança estrutural ao se realizarem as independências. Portanto, manteve-se a mesma maneira de distribuição da terra: desigual, concentrada nas mãos de poucos. A população indígena ficou em geral com as áreas de mais difícil acesso e menos férteis. Igualmente, continuou o sistema de exploração da mão de obra pela via do trabalho compulsório como meio de obter acesso à terra e ao dinheiro com que se pagavam os impostos. Não houve medidas governamentais de caráter social que pudessem dar aos excluídos um lugar mais digno nas sociedades da América Latina independente.
A Igreja Católica continuou a ter um papel importante na opção religiosa da população. Em alguns lugares, como foi o caso da luta pela independência no México, surgiram lideranças populares entre os padres( ver capítulo 9). Mas, o que predominava era uma aliança da Igreja com os poderosos. Nas áreas que não eram predominantemente católicas( uma minoria), as Igrejas protestantes formavam líderes locais nas suas escolas e seminários – como foi o caso de algumas antigas colônias inglesas no Caribe.
Relações com a Europa e Estados Unidos
Esta fase foi de afirmação da independência com relação às antigas metrópoles europeias, mas as suas classes dominantes seguiam interessadas em manter a mesma estrutura econômica. Isso fez com que a América Latina e o
Caribe fortalecessem suas relações com os Estados Unidos.
Os Estados Unidos, na década de 1820, considerando a política europeia saída do Congresso de Viena e da Santa Aliança( ver capítulo 8) e os seus próprios interesses na América, lançaram a Doutrina Monroe. Essa doutrina visava fortalecer a presença estadunidense nas economias e nos governos dos países da América e do Caribe. Ao mesmo tempo, visava evitar que se empreendesse qualquer iniciativa europeia no sentido da recolonização. A frase-símbolo da doutrina, como vimos na introdução deste capítulo, era:“ A América para os americanos.”
Entre os países da América espanhola, o México foi o que mais sofreu as ações de uma política externa agressiva por parte dos EUA. Houve guerras, realização de tratados sob pressão e compras de territórios( colocando seus moradores sob novo governo, sem consultá-los). E a realização de ocupações inicialmente pacíficas, mas visando a criação de uma maioria de habitantes interessada em integrar-se aos Estados Unidos, para um posterior pedido de união aos EUA, também foi um meio utilizado na anexação de partes do México. Assim foi caso do Texas.
O México ainda perdeu as regiões do Novo México e da Califórnia, que também se tornaram parte dos Estados Unidos. Até hoje nesses estados, várias cidades têm nomes mexicanos, como Albuquerque( capital do Novo México) ou San Francisco e Los Angeles( as maiores cidades da Califórnia), entre outras. Como disse anos mais tarde, de forma irônica e desiludida, um político mexicano:“ Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos...”
A Inglaterra penetrou nas economias desses jovens países da América pela via dos setores de transportes e serviços urbanos, implantando malhas ferroviárias, sistemas de melhorias de portos e de navegação a vapor, iluminação a gás nas cidades. Tudo isso através de contratos de exclusividade e condições mais do que favoráveis aos ingleses. E ainda exploravam a extração de minérios e implantaram empresas vinculadas à agroexportação de produtos agrícolas e frutas. Como se não bastasse, a elite desses países constituía um mercado consumidor de produtos industrializados da Inglaterra.
Questões internas: desigualdades sociais e construção da imagem das novas nações
A situação externa era acompanhada internamente de problemas que a independência não resolvera. Ao longo do século XIX, o México foi perdendo territórios e submergindo em suas contradições sociais internas. Havia uma elite de origem criolla( ver capítulo 9) forte, formada por proprietários de mineradoras, fazendeiros e grandes comerciantes. Havia também uma camada média urbana, em geral muito dependente das classes dominantes, mas desejosa de maior participação política. E havia uma imensa maioria indígena, oprimida sob as mais diversas formas, mas, ao mesmo tempo, sempre a um passo da rebelião.
A discriminação social com relação aos indígenas existia não somente no México como em outros países do continente. Desde a época colonial, os nativos foram expulsos de suas terras e excluídos da sociedade, marginalizados. No caso da Argentina, muitos fugiram para as distantes regiões da Patagônia, no extremo sul. No Peru, para as áreas de floresta amazônica. Muitas vezes foram levados ao trabalho forçado com baixíssima remuneração.
Nas terras que ainda restavam em mãos indígenas, depois da independência, houve tentativas de privatização e de transformá-las em pequenas propriedades