Mod.1 História Cederj 1 | Page 113

CAPÍTULO 10:: 113 navegação nos rios Paraguai, Paraná e Uruguai. A intervenção brasileira na área desaguou na Guerra do Paraguai( 1865 – 1870).
Essa guerra uniu o Brasil, a Argentina e o Uruguai contra o Paraguai. Foi um conflito sangrento, o mais mortífero das Américas.
“ As estatísticas sobre as perdas paraguaias na guerra variam entre 8,7 % e 69 % da população. [...]. Não há dúvidas, porém, de que a maior parte dos mortos não o foi em combate, mas sim devido a doenças, fome e exaustão física.[...]
O Brasil enviou para a guerra cerca de 139 mil homens, dos quais uns 50 mil morreram. Destes, a maior parte não pereceu em combate, mas sim devido a doenças e aos rigores do clima. Entre os aliados, o Uruguai enviou por volta de e 5500 soldados, dos quais, no final da guerra, restavam uns quinhentos; os demais morreram em combate, de doenças ou desertaram. As tropas argentinas sofreram perdas em torno de 18 mil homens, entre mortos e feridos, dos pouco men os de 30 mil soldados que a Argentina enviou ao Paraguai.” DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova historia da guerra do Paraguai. Cia das Letras, 2 ª. Ed., p. 483
Para o Paraguai, a guerra contra a Tríplice Aliança levou à destruição do Estado existente e à perda de 140 km2 para o Brasil e a Argentina..
O Brasil saiu da guerra com grandes problemas e desafios a enfrentar. O país estava com dívidas e, com seu exército fortalecido moralmente, mas reivindicando mais espaço e mais poder. Além disso, muitos ex-escravos que haviam lutado na guerra questionavam duramente a continuidade da escravidão.
A presença do capital inglês cresceu no país, principalmente após a guerra. Era o tempo também que os ingleses se lançavam ao mundo na expansão imperialista e colonialista( ver capítulo 8). Os ingleses investiram nas ferrovias, no setor de serviços das cidades( iluminação, transporte), na exportação de café e em bancos para incrementar o mercado financeiro no Brasil( emprestar dinheiro a juros, financiamentos da agricultura etc).
O fim da escravidão
Internamente, a campanha pelo fim da escravidão aumentou muito nas décadas de 1870 e 1880. Alguns políticos e figuras socialmente influentes aderiram à campanha abolicionista. Grupos como o dos Caifazes, em São Paulo, ajudavam na fuga de cativos e no ataque aos capitães do mato.
Os capitães do mato eram chefes de pequenas tropas que saíam para capturar escravos fugidos. Em geral eram contratados pelos senhores de escravos ou recebiam recompensas pelos seus serviços.
Nas cidades, alguns cidadãos livres, junto com libertos e escravos fugidos, criaram organizações clandestinas conhecidas como“ quilombos urbanos” – como foi caso do“ quilombo do Leblon”, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse quilombo, os ex-escravos produziam camélias que simbolizavam sua luta pela abolição e recebiam fugitivos de outras áreas identificando-se por essa flor na lapela.
Parlamentares como Joaquim Nabuco, engenheiros como André Rebouças e jornalistas como José do Patrocínio – estes dois cidadãos negros – incendiavam a opinião pública com seus discursos e textos. Contra-argumentando à defesa do direito de propriedade citado pelos escravistas, José do Patrocínio escreveu:“ A escravidão é um roubo.” E ainda havia figuras como Luís Gama, filho de uma africana liberta, vendido como escravo pelo próprio pai, na Bahia. Foi levado ao Rio de Janeiro e depois a São Paulo, onde aprendeu a ler e a conhecer a legislação brasileira. Acabou provando que era livre e logo, com base em seus conhecimentos, tornou-se defensor de muitos escravos, em diversas ações na justiça. Ou seja: também se lutava nos tribunais contra a escravidão.
Os setores escravistas reagiram. Havia grupos que exigiam indenização caso o governo terminasse com a escravidão. A legislação que foi sendo aprovada pelo governo criou ainda mais fontes de conflitos. A lei de 1871, conhecida como a lei do“ Ventre Livre”, não apenas tornou livres os filhos de escravas nascidos a partir de então, como determinou que os senhores seriam obrigados a conceder a alforria a seus escravos, caso estes tivessem recursos para comprá-la. A lei de 1885, conhecida como a lei“ dos Sexagenários”, pois libertou os cativos com mais de 65 anos, também atribuiu penas mais severas para quem açoitasse os escravos fugidos.
O exército brasileiro recusou-se oficialmente a sair em busca de escravos fugidos a partir de 1887, afirmando que“ soldado não é capitão do mato”. No nordeste, os jangadeiros do Ceará, comandados por aquele que ficou conhecido como o“ Dragão do Mar”, recusaram-se a transportar cativos e fecharam o porto ao tráfico escravista de qualquer espécie. O porto de Santos, em São Paulo, virou um território livre da luta antiescravista, com violência e morte de capitães do mato e senhores – episódios que, no dizer de Luís Gama, eram“ atos de legítima defesa”.
Finalmente, em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel, regente do Brasil, assinou uma lei que dizia:“ É declarada extinta a escravidão no Brasil. Revogamse as disposições em contrário.” Não havia muitos escravos no Brasil, de fato, se comparado com anos anteriores. Mas, a partir daí a escravidão fora colocada na ilegalidade.
Essa medida do governo monárquico tirou o apoio que ele ainda poderia ter dos setores escravistas, mas levou aproximadamente cinco mil pessoas às ruas do Rio de Janeiro, para festejar a liberdade, em frente ao Paço Imperial( na Praça XV, centro do Rio de Janeiro). A celebração faria lembrar a frase de Castro Alves, poeta baiano e um dos mais ardorosos combatentes da escravidão na literatura brasileira:“ A praça, a praça é do povo, como o céu é do condor.”
O fim da monarquia
A oposição ao regime monárquico não era algo novo. Podemos lembrar, por exemplo, que na Insurreição Pernambucana( 1817), a ideia de um regime republicano para o Brasil estava entre os projetos defendidos. E o exemplo dos países que se tornaram independentes nas Américas era evidente: a opção das jovens nações fora pela República. Não sem razão, dizia o Manifesto Republicano, em 1870:“ Somos da América, e queremos ser americanos.” Ser americano, de acordo com esse documento, era ser republicano. Esse manifesto foi publicado em um jornal do Rio de Janeiro chamado A República e assinado por 57 homens entre jornalistas, intelectuais e políticos. Nele, o sistema político imperial, baseado no Poder Moderador, era duramente criticado. Para uma parte dos republicanos, o federalismo, no qual as províncias tinham maior autonomia, aparecia como a melhor forma de permitir a participação pollítica dos cidadãos. Muitos cafeicultores paulistas aderiram à defesa de uma república federalista, considerando que possuíam pouca influência nas decisões do Império.