Meia-volta, volver
cidades do interior, era comum que os habitantes não
sentissem os efeitos do cerceamento das liberdades que
traz uma Ditadura como os moradores dos centros de
mobilização política. Aceitaram-na em consideração a
seus pais, e Clair viveu escondida os próximos anos de
sua vida até que ocorreu sua absolvição, pouco tempo
antes da promulgação da Lei da Anistia — em 1979.
Mais tarde, conseguiu emprego em uma fábrica de
caixas de papelão em Canoas, no Rio Grande do Sul, e
mudou-se para um pensionato em Porto Alegre.
“Você está começando uma vida, não tem muita
estrutura e tem todos os impedimentos para você
trabalhar, além do medo da sociedade e das pessoas
de se relacionarem com pessoas que eram visadas.
Então essas pessoas tinham um temor de se aproximar
das pessoas que eram perseguidas pelos agentes da
ditadura, mesmo que tivessem sido absolvidas, porque
eu era uma pessoa ingrata do regime”.
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“
“Eu tinha lido o ‘Cem Anos de Solidão’
na prisão. Quando me mudei para
Porto Alegre, choveu um mês inteiro,
acho que era julho. No livro, tem uma
cidade em que choveu por anos e anos,
e me senti como se estivesse lá dentro,
porque eu estava lá, foragida, sem
conhecer muita gente, só uma ou duas
pessoas, numa cidade em que choveu
o mês inteiro”.