Meia-volta, volver Livro_Final | Page 43

Que bom te ver viva cabo dos quarenta dias, as torturas cessaram. Não sabe dizer com exatidão quanto tempo permaneceu presa; talvez seis, talvez oito meses. Era ré em dois processos, em São Paulo e em Curitiba, e foi então transferida à cidade onde havia iniciado as atividades de militância pelas liberdades democráticas para prestar depoimento. O juiz responsável por seu caso era, por sorte, segundo suas palavras, um liberal. Acusada de associação com mobilizações populares com intenção de derrubar o governo, sua prisão preventiva não havia sido decretada, o que tornava irregular sua permanência na prisão. A partir dali, tudo aconteceu em questão de horas. Se fosse para a casa dos pais, seria facilmente localizada. Foi ajudada pelo irmão médico, que a internou em um hospital da capital paranaense por uma noite. Clair acordou na manhã seguinte, mais uma vez como uma fugitiva. Estava novamente na clandestinidade. A prisão preventiva foi enfim decretada, mas já era tarde: a dirigente do Ação Popular já ia longe, e buscaria refúgio na casa de parentes no interior. Iniciava-se uma nova fase de sua vida de resistência, uma que não era tão entusiasmante como os trabalhos de panfletagem e mobilização operária que havia realizado em São Paulo, antes da prisão. A militante passou a viver de forma reservada. Permanecia a maior parte do tempo dentro de casa, onde não podia ser vista. Os familiares que lhe ofereceram abrigo não eram exatamente opositores do regime. Segundo ela, não tinham realmente consciência do que significava sua necessidade de se esconder. Nas 41