Que bom te ver viva
cabo dos quarenta dias, as torturas cessaram. Não sabe
dizer com exatidão quanto tempo permaneceu presa;
talvez seis, talvez oito meses. Era ré em dois processos,
em São Paulo e em Curitiba, e foi então transferida à
cidade onde havia iniciado as atividades de militância
pelas liberdades democráticas para prestar depoimento.
O juiz responsável por seu caso era, por sorte, segundo
suas palavras, um liberal. Acusada de associação com
mobilizações populares com intenção de derrubar
o governo, sua prisão preventiva não havia sido
decretada, o que tornava irregular sua permanência na
prisão.
A partir dali, tudo aconteceu em questão de horas.
Se fosse para a casa dos pais, seria facilmente localizada.
Foi ajudada pelo irmão médico, que a internou em um
hospital da capital paranaense por uma noite. Clair
acordou na manhã seguinte, mais uma vez como uma
fugitiva. Estava novamente na clandestinidade. A
prisão preventiva foi enfim decretada, mas já era tarde:
a dirigente do Ação Popular já ia longe, e buscaria
refúgio na casa de parentes no interior. Iniciava-se uma
nova fase de sua vida de resistência, uma que não era
tão entusiasmante como os trabalhos de panfletagem
e mobilização operária que havia realizado em São
Paulo, antes da prisão.
A militante passou a viver de forma reservada.
Permanecia a maior parte do tempo dentro de casa, onde
não podia ser vista. Os familiares que lhe ofereceram
abrigo não eram exatamente opositores do regime.
Segundo ela, não tinham realmente consciência do
que significava sua necessidade de se esconder. Nas
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