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qualidade. Das vantagens do esquecimento todo mundo sabe. Sofre-se menos. Dentre as desvantagens, o esquecer vira “ignorar”, “desdenhar”, ou qualquer outro verbo pretensioso e arrogante fadado a nos livrar da obrigação de pensar e de sentir. Não é a única hipótese. Alguns defendem que não esquecemos coisíssima nenhuma. O que fizemos foi não construir uma narrativa robusta sobre a ditadura civil- militar, daí a desgraça. Ao contrário de nossos hermanos argentinos, chilenos e uruguaios – que beiram a histeria ao defenderem seu direito de nunca esquecer – nós, grosso modo, contamos mal essa história, deixando que versões se sobrepusessem aos fatos. Falou-se pouco da ditadura na escola, nos púlpitos, nos clubes, nas mesas – em família. De modo que tantos e tantos brasileiros nascidos depois da abertura, em meados da década de 1980, se mostram capazes de falar de tortura, do Doi-Codi, do acordo MEC-Usaid, do exílio, do empastelamento das instituições com a mesma fluidez com que tratam das Guerras Púnicas ou as do Peloponeso. Ou seja, sem nenhuma. De conversa mal costurada, os 21 anos de privação de direitos viraram conversa de maluco. Meu amigo – por ironia – se encaixa não entre os que não se lembram de nada, mas entre os que se lembram muito bem do que aconteceu. Daí preferir o silêncio, por temer a sanha dos esquecidos. Formam uma categoria bem particular. Sofrem de patologia própria: são autoconfiantes, adotam explicativas simples para problemas complexos, mostram-se pouco afáveis à dor dos outros. E por outros se entenda, sobretudo, os que 10