Prefácio
Pecar pelo esquecimento
José Carlos Fernandes
Um amigo me escreveu. Pedia desculpas. Nos
últimos tempos – em meio ao surto de bipolaridade
que tomou conta da Nação – decidiu se calar. Nada de
postagens nas redes sociais. Nenhum bate-boca com
parentes e amigos. Pouco mais velho do que eu, imagina
que as pessoas próximas estejam se perguntando por
que diabos não se posicionou. Nenhum brado contra
os autoritários. Nem sombra de protesto contra as
ofensas gritantes a negros, mulheres e LGBTs. Nem um
pio contra os caretas. “Estou quieto, pois conheço os
fascistas mais de perto do que gostaria”, registrou, sem
mais. Ele não esquece – ou não se permitiu esquecer.
Há quem diga – com uma pá de argumentos – que
o Brasil anda condescendente com certos discursos
bárbaros por sofrer de amnésia. Nosso dom de esquecer,
qual uma falha de fabricação sem direito a recall, é
ao mesmo tempo nosso maior defeito e nossa maior
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