sentiram a ditadura lhes escorrer pela pele, chegando
aos ossos, depois de lhes consumir os nervos. A ditadura
iniciada em 1964 não foi igual para todo mundo. E
enxergá-la na perspectiva do outro, outra coisa não é
senão um exercício de humanidade.
Esse livro quer que mexamos os músculos
atrofiados, para – numa expressão tão cara aos anos
1960 – liberar a mente. Só assim para reler a página já
amarelada do passado, mas que tanto diz sobre nós. O
convite está feito. Lembro-me do que ouvi, dia desses,
numa entrevista, da jornalista Miriam Leitão, presa
política do regime militar. Disse algo assim: “Não nos
damos conta da importância do oxigênio, a não ser que
nos falte”. A frase é sua metáfora dos “anos do chumbo”.
Foi quando milhares de jovens entenderam que oxigênio
não era abstração. A falta de ar figura entre as piores
agonias. É acordar de noite assustado. É olhar da janela
e não saber aonde ir. Talvez se imaginar sem ar seja uma
boa brincadeira antes de ler as narrativas que se seguem
nesta obra. E depois de os pulmões reclamarem – e todo
o corpo pedir liberdade – teremos elementos para fazer
juízos. Poderemos até não nos lembrar de tudo o que nos
disseram sobre aquele tempo, mas nunca há de nos faltar
esforço para, como se diz, “puxar pela memória”. É a
maior das coragens.
José Carlos Fernandes é jornalista
e professor universitário
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