Meia-volta, volver Livro_Final | Page 13

sentiram a ditadura lhes escorrer pela pele, chegando aos ossos, depois de lhes consumir os nervos. A ditadura iniciada em 1964 não foi igual para todo mundo. E enxergá-la na perspectiva do outro, outra coisa não é senão um exercício de humanidade. Esse livro quer que mexamos os músculos atrofiados, para – numa expressão tão cara aos anos 1960 – liberar a mente. Só assim para reler a página já amarelada do passado, mas que tanto diz sobre nós. O convite está feito. Lembro-me do que ouvi, dia desses, numa entrevista, da jornalista Miriam Leitão, presa política do regime militar. Disse algo assim: “Não nos damos conta da importância do oxigênio, a não ser que nos falte”. A frase é sua metáfora dos “anos do chumbo”. Foi quando milhares de jovens entenderam que oxigênio não era abstração. A falta de ar figura entre as piores agonias. É acordar de noite assustado. É olhar da janela e não saber aonde ir. Talvez se imaginar sem ar seja uma boa brincadeira antes de ler as narrativas que se seguem nesta obra. E depois de os pulmões reclamarem – e todo o corpo pedir liberdade – teremos elementos para fazer juízos. Poderemos até não nos lembrar de tudo o que nos disseram sobre aquele tempo, mas nunca há de nos faltar esforço para, como se diz, “puxar pela memória”. É a maior das coragens. José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário 11