Madame Eva Nº3 | Page 19

ÚLTIMOS PASSOS Por Lucas Anderson 1 Condenaram-me à morte. Tive um processo irre- tocável. Garantiram-me o direito à contraditória e à ampla defesa. Na terra, os homens se preocu- pam com as circunstâncias e meu processo correu dentro do arcabouço jurídico de uma ciência que ao longo dos séculos se aperfeiçoou para minimizar os abusos interpre- tativos da lei. A justiça dos homens, aliás, depende não apenas da comprovação de uma relação de causa e con- sequência entre o ato do réu e o prejuízo a outrem, mas, também, que tal nexo de consequência seja estabelecido dentro de um devido processo legal. E mesmo que meu julgamento tenha sido conduzido por homens que me qui- seram culpado, não deixaram de respeitar o devido pro- cesso legal. Condenaram-me os homens, mas eu mantive minha inocência. Confiante no julgamento celeste; pois, para Deus, não há processo, quiçá não há contexto, não há necessidade de nexo de causa e consequência, Sua senten- ça depende apenas de uma testemunha: a consciência do acusado. 2 E minha consciência estava tranquila quando o juiz me sentenciou: fuzilamento. Agora era só caminhar para o paredão em curtos passos que demorariam dias. O processo precisava ser passado em julgado, a fim de aliviar a consciência dos que me acusavam. 3 Antes de cair pela primeira vez, o aço frio fez- -se fosco; o incômodo, suportável. Sete ligas, contei sete ligas, sem saber ao certo qual me prendia. Com as mãos às costas, caí no asfalto duro, mas contei sete ligas antes de bater no chão. Tro- pecei pelo peso das algemas que me curvavam. A força do aço está no nó da amarra. Aquelas argolas trançadas dependiam da força da solda de cada uma. Pensei logo em romper meu cati- veiro, não pelo poder de meus braços, mas pela fraqueza daquelas ligas, “Eu rompo esta corren- te! Não há aço que me detenha! Eu rompo esta corrente!” Vencido, entreguei-me às sete argolas, levantei e segui meus passos como se a queda não me abalasse. 17