Madame Eva Mme Eva quinto numero | Page 27

da tinta. E como os fios para pincéis são ciente para que se imaginasse uma nova mais curtos, esquilos, javalis e texugos estética nas obras produzidas. são preferidos às crinas de cavalos. Arthur sabia disso tudo e não de- morou a entender que a proposta ali era outra. Os fios não seriam escolhidos por suas qualidades físicas, pela espessura ou textura, elas eram, em verdade, secun- dárias. Seu Valdir estava se propondo a fazer pincéis em cabelos de mulher, com os fios selecionados de acordo com o sentimento que cada moça transpassava. O pintor teria em suas mãos uma ferra- menta incomum, e pelas mechas de uma dama invocada, de uma viúva solitária, de uma mãe zelosa, tatearia um pedaço vivo das mulheres escolhidas! Correndo os dedos pelas mechas de Louise, Léonie e Lulu, Arthur deve ter sentido um arrepio violento. Sua men- te não se ocupava em saber como que a tinta se comportaria naqueles pelos, mas em imaginar o movimento que seu pu- nho faria para dar vida aos riscados que antevia. Cada pincel que Seu Valdir Dan- tas propunha teria uma pisque própria. Pintar com os cabelos de Lara – morena fogosa – seria como fazer amor às telas; com os de Letícia – ruiva suicida –, como velá-las. As pernas em um quadro pinta- do com Elizabete! As árvores em Débo- ras! Arthur pressentia que poderia dar a seus quadros aquele pedaço de alma que todo artista deseja imprimir em sua obra. As gotas de tinta que se fixassem nos fios dos pincéis seriam apenas as necessárias para uma explosão visual inigualável. Esta história poderia terminar aqui. Com os pincéis de Anas, Cristhinas e Isabeis consagrando o expoente Arthur Zuccari. O salto qualitativo e merca- dológico que suas telas adquiriram está registrado nos livros de arte e nos reci- bos das galerias e leiloeiros, e serviriam como atestado de um final feliz. Con- tudo, as mechas de cabelo dos álbuns do senhor Valdir Dantas são apenas parte da história de nosso pintor. Chegada a primeira encomenda de trinta pincéis, Arthur pôs-se a traba- lhar com uma satisfação feroz. Tarado, o artista sentia-se tão à vontade com os novos utensílios de trabalho que logo voltou a ver Seu Valdir, a fim de realizar mais uma encomenda. -Ouvi dizer que uma obra sua foi parar no Belas Artes! -Sim, está concorrendo ao Prêmio de Viagem ao País... -Que bom! Depois de agradecer os elogios – e muito mais a qualidade dos pincéis – Ar- thur apressou-se em expor a seu Valdir o real motivo de sua visita: -Mais pincéis! As mechas compridas dos cabelos serviam-lhe perfeitamente. Não tinha Jorge Fontana e Valdir Dantas fi- crítica nenhuma. O equilíbrio dos cabos, caram satisfeitíssimos quando ouviram a tensão das amarras... Seu Valdir havia a encomenda de Arthur. Trinta pincéis! fabricado pincéis da mais alta qualida- Nenhum dos dois tinha certeza de que os de. Mas Arthur voltava ao luthier feito pincéis capilares seriam mesmo capazes brushmaker com uma única sugestão: de se tornarem uma extensão do corpo ampliar a gama de pelos femininos. Os do pintor, mas seu entusiasmo era sufi- arcos para violinos precisam de fios lon- 25