da tinta. E como os fios para pincéis são ciente para que se imaginasse uma nova
mais curtos, esquilos, javalis e texugos estética nas obras produzidas.
são preferidos às crinas de cavalos.
Arthur sabia disso tudo e não de-
morou a entender que a proposta ali era
outra. Os fios não seriam escolhidos por
suas qualidades físicas, pela espessura ou
textura, elas eram, em verdade, secun-
dárias. Seu Valdir estava se propondo a
fazer pincéis em cabelos de mulher, com
os fios selecionados de acordo com o
sentimento que cada moça transpassava.
O pintor teria em suas mãos uma ferra-
menta incomum, e pelas mechas de uma
dama invocada, de uma viúva solitária,
de uma mãe zelosa, tatearia um pedaço
vivo das mulheres escolhidas!
Correndo os dedos pelas mechas
de Louise, Léonie e Lulu, Arthur deve ter
sentido um arrepio violento. Sua men-
te não se ocupava em saber como que a
tinta se comportaria naqueles pelos, mas
em imaginar o movimento que seu pu-
nho faria para dar vida aos riscados que
antevia. Cada pincel que Seu Valdir Dan-
tas propunha teria uma pisque própria.
Pintar com os cabelos de Lara – morena
fogosa – seria como fazer amor às telas;
com os de Letícia – ruiva suicida –, como
velá-las. As pernas em um quadro pinta-
do com Elizabete! As árvores em Débo-
ras! Arthur pressentia que poderia dar a
seus quadros aquele pedaço de alma que
todo artista deseja imprimir em sua obra.
As gotas de tinta que se fixassem nos fios
dos pincéis seriam apenas as necessárias
para uma explosão visual inigualável.
Esta história poderia terminar
aqui. Com os pincéis de Anas, Cristhinas
e Isabeis consagrando o expoente Arthur
Zuccari. O salto qualitativo e merca-
dológico que suas telas adquiriram está
registrado nos livros de arte e nos reci-
bos das galerias e leiloeiros, e serviriam
como atestado de um final feliz. Con-
tudo, as mechas de cabelo dos álbuns do
senhor Valdir Dantas são apenas parte da
história de nosso pintor.
Chegada a primeira encomenda
de trinta pincéis, Arthur pôs-se a traba-
lhar com uma satisfação feroz. Tarado,
o artista sentia-se tão à vontade com os
novos utensílios de trabalho que logo
voltou a ver Seu Valdir, a fim de realizar
mais uma encomenda.
-Ouvi dizer que uma obra sua foi
parar no Belas Artes!
-Sim, está concorrendo ao Prêmio
de Viagem ao País...
-Que bom!
Depois de agradecer os elogios – e
muito mais a qualidade dos pincéis – Ar-
thur apressou-se em expor a seu Valdir o
real motivo de sua visita:
-Mais pincéis!
As mechas compridas dos cabelos
serviam-lhe perfeitamente. Não tinha
Jorge Fontana e Valdir Dantas fi- crítica nenhuma. O equilíbrio dos cabos,
caram satisfeitíssimos quando ouviram a tensão das amarras... Seu Valdir havia
a encomenda de Arthur. Trinta pincéis! fabricado pincéis da mais alta qualida-
Nenhum dos dois tinha certeza de que os de. Mas Arthur voltava ao luthier feito
pincéis capilares seriam mesmo capazes brushmaker com uma única sugestão:
de se tornarem uma extensão do corpo ampliar a gama de pelos femininos. Os
do pintor, mas seu entusiasmo era sufi- arcos para violinos precisam de fios lon-
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