Madame Eva Mme Eva quinto numero | Page 28

gos, o que limita a seleção de cabelos que recebia os envelopes e se metia a fabricar podem ser usados, já os pincéis, não! A os pincéis, gravando, a ferro, nos cabos, infinita variedade capilar, dos cílios às so- os nomes das doadoras. brancelhas, dos pelos das axilas aos pelos Quando o velho luthier faleceu, pubianos! Empolgava-se o pintor, Arthur se viu obrigado a assumir a ma- -Um pincel de um fio único e so- nufatura dos pincéis e um sentimento de litário, Seu Valdir! Imagine: um único profundo remorso se apoderou do pintor. fio extraído da verruga de uma velha vai- Percebeu que a alquimia de fazer dos ca- belos femininos ferramentas de sua alma dosa! em nada se assemelhava ao trabalho de A ideia não desagradava o artesão, um operário. Arrependeu-se de não ter mas sua realização lhe parecia pouco viá- corrigido a percepção que seu Valdir ti- vel, afinal, como é que ele tomaria posse nha do próprio trabalho; afinal, o luthier de tantas variedades de pelos? Os fios de era um artista de primeira linha, que de- cabelos são comercializados nos merca- sejava inserir um pedaço de si em suas dos de perucas e varridos nos salões de obras. beleza, não é difícil obtê-los e conhecer E nesse desejo, a exemplo do Seu suas origens; mas, por Deus, como é que ele iria conseguir pentelhos suficientes Valdir Dantas, Arthur Zuccari nunca se acomodou: nem na sua produção de para fazer um pincel? quadros, nem na sua epopeia pela ferra- -Disso, ocupo-me eu, tranquilizou- menta certa. Pois a verdade é que, se a -o Arthur Zuccari. vida dum artista começa com a escolha de suas ferramentas, a de Arthru Zuc- E com essa responsabilidade assu- cari recomeçava a cada obra nova. Seu mida, o pintor voltou para o ateliê com tempo não era dividido entre fazer e usar a vontade expressiva posta temporaria- pincéis, mas consumido simultaneamen- mente de lado, em favor de uma caça aos te pelas duas coisas. pelos pertinentes. Era preciso aprimorar sua artimanha luxuriosa, a fim de coletar Há quem diga que a carreira de quantos mais fios possíveis. Arthur Zuccari tenha sofrido com sua obsessão. Que, esteticamente, sua pro- Quantas senhoras, senhoritas e se- dução minimalista, ao final da vida, sus- melhantes não terão passado pelo apar- tentava-se por um fio – “o asqueroso fio tamento do obsecado artista? Ao julgar nasal de uma legalé-qualquer do Pelouri- por sua produção de telas e seu guarda- nho” – nas indelicadas palavras dum crí- -pincéis, muitas! tico. Negativo. Como disse o violinista O enredo era sempre o mesmo, Ar- Jorge Fontana, que tão bem conheceu o thur seduzia a mulher escolhida, leva-a drama e a obra de Zuccari, a vida e os para sua cama e, com um lirismo frouxo, quadros de Arthur contam a história de convencia-a a ceder-lhe uns quantos fios. um homem que não se contentava em Às mais enamoradas, o pintor conseguia limitar sua voz. A busca pelo pincel cer- arrancar os pelos com uma pinça, de for- to vinha, na realidade, da recusa de re- ma a manter intacta a raiz. Guardava conhecer nos fios do pincel a extensão tudo em pequenos envelopes marcados de seu corpo, e da vontade de encontrar, com o nome da moça e a proveniência pelos fios de outros corpos, os traços que da matéria prima: “Patrícia – antebraço seriam a extensão de sua alma. esquerdo”. Enviava-os a Seu Valdir, que 26