gos, o que limita a seleção de cabelos que recebia os envelopes e se metia a fabricar
podem ser usados, já os pincéis, não! A os pincéis, gravando, a ferro, nos cabos,
infinita variedade capilar, dos cílios às so- os nomes das doadoras.
brancelhas, dos pelos das axilas aos pelos
Quando o velho luthier faleceu,
pubianos! Empolgava-se o pintor,
Arthur se viu obrigado a assumir a ma-
-Um pincel de um fio único e so- nufatura dos pincéis e um sentimento de
litário, Seu Valdir! Imagine: um único profundo remorso se apoderou do pintor.
fio extraído da verruga de uma velha vai- Percebeu que a alquimia de fazer dos ca-
belos femininos ferramentas de sua alma
dosa!
em nada se assemelhava ao trabalho de
A ideia não desagradava o artesão, um operário. Arrependeu-se de não ter
mas sua realização lhe parecia pouco viá- corrigido a percepção que seu Valdir ti-
vel, afinal, como é que ele tomaria posse nha do próprio trabalho; afinal, o luthier
de tantas variedades de pelos? Os fios de era um artista de primeira linha, que de-
cabelos são comercializados nos merca- sejava inserir um pedaço de si em suas
dos de perucas e varridos nos salões de obras.
beleza, não é difícil obtê-los e conhecer
E nesse desejo, a exemplo do Seu
suas origens; mas, por Deus, como é que
ele iria conseguir pentelhos suficientes Valdir Dantas, Arthur Zuccari nunca
se acomodou: nem na sua produção de
para fazer um pincel?
quadros, nem na sua epopeia pela ferra-
-Disso, ocupo-me eu, tranquilizou- menta certa. Pois a verdade é que, se a
-o Arthur Zuccari.
vida dum artista começa com a escolha
de suas ferramentas, a de Arthru Zuc-
E com essa responsabilidade assu-
cari recomeçava a cada obra nova. Seu
mida, o pintor voltou para o ateliê com
tempo não era dividido entre fazer e usar
a vontade expressiva posta temporaria-
pincéis, mas consumido simultaneamen-
mente de lado, em favor de uma caça aos
te pelas duas coisas.
pelos pertinentes. Era preciso aprimorar
sua artimanha luxuriosa, a fim de coletar
Há quem diga que a carreira de
quantos mais fios possíveis.
Arthur Zuccari tenha sofrido com sua
obsessão. Que, esteticamente, sua pro-
Quantas senhoras, senhoritas e se-
dução minimalista, ao final da vida, sus-
melhantes não terão passado pelo apar-
tentava-se por um fio – “o asqueroso fio
tamento do obsecado artista? Ao julgar
nasal de uma legalé-qualquer do Pelouri-
por sua produção de telas e seu guarda-
nho”
– nas indelicadas palavras dum crí-
-pincéis, muitas!
tico. Negativo. Como disse o violinista
O enredo era sempre o mesmo, Ar- Jorge Fontana, que tão bem conheceu o
thur seduzia a mulher escolhida, leva-a drama e a obra de Zuccari, a vida e os
para sua cama e, com um lirismo frouxo, quadros de Arthur contam a história de
convencia-a a ceder-lhe uns quantos fios. um homem que não se contentava em
Às mais enamoradas, o pintor conseguia limitar sua voz. A busca pelo pincel cer-
arrancar os pelos com uma pinça, de for- to vinha, na realidade, da recusa de re-
ma a manter intacta a raiz. Guardava conhecer nos fios do pincel a extensão
tudo em pequenos envelopes marcados de seu corpo, e da vontade de encontrar,
com o nome da moça e a proveniência pelos fios de outros corpos, os traços que
da matéria prima: “Patrícia – antebraço seriam a extensão de sua alma.
esquerdo”. Enviava-os a Seu Valdir, que
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