Jorge sentou-se ao lado de Arthur,
pendurando a bengala ao balcão e pedin-
do uma dose de qualquer coisa. Acomo-
dado, disse algo do tipo:
-Acho que posso te ajudar.
As palavras que os dois homens
trocaram naquela noite se perderam na
memória dos presentes; o que é lastimá-
vel, pois a precisão desses diálogos são
as únicas joias que faltam para fazer da
historiografia uma ciência séria. (Aliás,
não custa aqui lembrar o fantasioso con-
to de Moe Patéras, em que o protagonista
inventa uma espécie de agulha de vitrola
capaz de reproduzir sons como diálogos
e discursos dos séculos passados, quan-
do passada nos muros e objetos antigos.
Mas isso já é outra história, e como este
não é um relato de ficção científica, vol-
temos aos fatos.)
E os fatos são que não se sabe ao
certo se foi no mesmo dia, no seguinte, ou
dali a uns quantos, mas os dois homens
foram à casa de Valdir Dantas; aquele
que, em outros tempos, fazia os violinos
de Jorge Fontana e os instrumentos de
toda uma geração de virtuosos latino-a-
mericanos.
Em mais um papo que se perdeu
no tempo, os três homens discutiram o
drama da expressão presa, com os dois ar-
tistas reverenciando o artesão – que fazia
questão de se apresentar assim, para que
não se confundisse seu trabalho operário
com aquele dos interpretes da alma.
Passadas as lisonjas, Jorge Fontana
insinuou uma proposta:
-E um pincel, Seu Valdir? Um
pincel nos moldes daqueles arcos de vio-
lino que o senhor fazia...
Sem relutar, o velho luthier con-
duziu os dois homens a um pequeno
quarto no final dum corredor estreito.
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