Madame Eva Mme Eva quinto numero | Page 25

Jorge sentou-se ao lado de Arthur, pendurando a bengala ao balcão e pedin- do uma dose de qualquer coisa. Acomo- dado, disse algo do tipo: -Acho que posso te ajudar. As palavras que os dois homens trocaram naquela noite se perderam na memória dos presentes; o que é lastimá- vel, pois a precisão desses diálogos são as únicas joias que faltam para fazer da historiografia uma ciência séria. (Aliás, não custa aqui lembrar o fantasioso con- to de Moe Patéras, em que o protagonista inventa uma espécie de agulha de vitrola capaz de reproduzir sons como diálogos e discursos dos séculos passados, quan- do passada nos muros e objetos antigos. Mas isso já é outra história, e como este não é um relato de ficção científica, vol- temos aos fatos.) E os fatos são que não se sabe ao certo se foi no mesmo dia, no seguinte, ou dali a uns quantos, mas os dois homens foram à casa de Valdir Dantas; aquele que, em outros tempos, fazia os violinos de Jorge Fontana e os instrumentos de toda uma geração de virtuosos latino-a- mericanos. Em mais um papo que se perdeu no tempo, os três homens discutiram o drama da expressão presa, com os dois ar- tistas reverenciando o artesão – que fazia questão de se apresentar assim, para que não se confundisse seu trabalho operário com aquele dos interpretes da alma. Passadas as lisonjas, Jorge Fontana insinuou uma proposta: -E um pincel, Seu Valdir? Um pincel nos moldes daqueles arcos de vio- lino que o senhor fazia... Sem relutar, o velho luthier con- duziu os dois homens a um pequeno quarto no final dum corredor estreito. 23