O tempo passou, foi-se um ano, foram dois. O seu Ícaro
supriu a vila com milho sem cessar, mesmo no escaldante verão
aquele milharal estava verdejante, algumas vezes o ajudei, ele
pegava água no riacho que passava ali perto e aguava toda a
plantação ao amanhecer e ao anoitecer. Minha mãe começou a
mudar sua comida, o milho era barato e ela conseguia fazer
receitas únicas com a mistura deste com a carne de gado.
Tendo exposto, até aqui, como tem sido minha vida desde
que esse milharal entrou em nossa vida, direta ou indiretamente,
devo explicar o motivo de escrever estas linhas.
No verão desse ano o milharal morreu, não mais possuía um
brilho verdejante, só aquele amarelado feio e cansado de plantas
mortas. Junto com a morte da plantação veio à vila uma praga,
deixava as pessoas fracas e anêmicas, junto com uma febre que
custava a passar. Ainda no fim do ano minha querida mãe veio a
falecer, assim como dezenas de outras pessoas da vila, meu pai e
eu não tínhamos mais tempo para quase nada, fazíamos caixões
o dia inteiro e as vezes trabalhávamos durante a noite. Com o
dinheiro podemos no sustentar bem, mas nem meu velho nem eu
eramos bons cozinheiros.
Quando veio o inverno não houve chuva, as árvores estavam
morrendo, assim como o gado, o trigo e os rios. Nossa região
sofria de uma forma absurda, logo nem mesmo haveriam
pessoas ali, pois a praga não havia ido embora e matava dezenas
por mês. Minha saúde começou a piorar e meu pai me pediu
para ir trabalhar com o Ícaro por um tempo, afirmando que
conseguia se virar sozinho.
O seu Ícaro havia construído uma pequena cabana no centro
do milharal seco, teve que vender a casa que tinha no centro da
vila para quitar suas dívidas.
Eu e Rex chegamos após o almoço, o velho Ícaro estava
preparando os baldes para buscar água no rio. Expliquei-lhe o