antes de me acalmar e voltar para a sala de trabalho, fechando a
janela antes de sair.
O carteiro tocou a campainha, outro impedimento ao meu
trabalho, ele entregou-me uma caixa sem remetente e a carta que
há muito esperava. Guardei a carta na gaveta de minha
escrivaninha, o medo de seu conteúdo me impediu de abri-la,
apenas ver que o remetente era da agência imaginei que aquela
era a resposta sobre meu pedido para uma exposição com
minhas obras. Abri a caixa e o cheiro doce de laranjas encheu a
sala, mas lá dentro só havia este velho livro no qual escrevo este
relato. Nem me dei ao trabalho de o abrir, coloquei sobre a
escrivaninha e voltei para a sala de trabalho, o cheiro de laranjas
estava ali também. Respirei fundo aproveitando o doce aroma e
comecei a pintura.
Movimento após movimento me envolvi naquela dança que,
antes julgava ser comigo mesma, mas logo notei que era com o
desconhecido. As pinceladas eram lentas e precisas, cada cor me
envolvia e me preenchia, os meus olhos moviam-se rápidos,
saltando do espelho onde me via para a tela.
Os minutos foram passados e estes logo se tornaram horas, as
tintas acabavam, mas eu estava tão presa na pintura que apenas
continuei, com as cores que me sobravam. A primeira que
acabou foi a vermelha.
O tempo continuou passando e nem mais olhava para o
espelho, os detalhes estavam gravados na minha mente. Logo
terminei e dei uma boa olhada para ela, meu rosto sério e
concentrado dava um ar interessante, descansei o pincel e a
paleta e fui tomar um banho para almoçar.
Assim que entrei na cozinha lembrei do furto que o gato
realizou mais cedo e, levemente irritada, tive que fritar ovos.
Enquanto mexia com a colher encarei a gema, aquele amarelo
com tons de vermelho, mas ainda não era laranja. Depois do