almoço sentei-me para descansar, mas aquela imagem não me
saia da cabeça, voltei para a sala de trabalho e peguei os tubos
de tinta que ainda tinha guardados. Comecei a misturar o
amarelo e o vermelho buscando aquela cor, mas quanto mais
tentava, mais longe dela eu estava. O cheiro de laranjas vindo do
livro começava a me enjoar.
Outro ruído de panelas sendo remexidas, peguei minha
sandália e fui discretamente à cozinha, tentando não fazer
barulho. A janela estava aberta e o gato do vizinho estava
comendo meu macarrão. Por um segundo uma ideia surgiu na
minha mente. Como um lampejo amarelo. Eu corri para a janela
e a fechei, o gato correu, talvez imaginando o que havia surgido
em minha cabeça. Eu peguei uma faca e a vassoura, fui
lentamente caminhando atrás dele, estava na minha sala de
trabalho, perto do meu autorretrato, aquela pintura era o ponto
final das minhas pinturas, devia deixar essa ideia absurda e parar
com essa perseguição.
Não valia a pena, perder aquela pintura, tão natural, tão
simples, tão… Faltou-me vontade para desistir, fechei a porta
para que ele não fugisse e sacrifiquei minha obra.
Como eu disse antes, isso foi há cerca de um mês. Hoje meus
quadros estão por todos os lugares dessa cidade, não as pinturas
falhas e de péssimo gosto que eu pintava anteriormente. Não. O
que faz as pessoas sonharem com meus quadros durante a noite,
o que faz com que tenham o desejo de tomá-los para si, o que
faz com que deixem sua vida de lado para admirar minhas obras
é esse amarelo.
Essa cor deliciosa que parece derreter meus olhos pincelada
após pincelada. O primeiro ‘estoque’ do vermelho durou pouco,
mas meu vizinho passou mais de uma semana me perguntando
sobre o maldito gato, então ele próprio foi um sacrifício em
nome da arte. Entretanto, esta noite vou tentar conseguir mais