Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 99

98 espaço subterrâneo violado pela presença dos protagonistas tem não apenas implica- ções narrativas ou dramáticas, mas formais: é como se a própria textura do filme anterior instaurada pela complacência no jogo incon- sequente das convenções fosse tragada pelo caos de um ambiente até então desconhecido. Talvez seja esse uso radicalmente disruptivo desse lócus do horror que cause a sensação incômoda em muitos espectadores de que os filmes de Hooper não “incoerentes”, de que em um dado momento todo o tecido narra- tivo estabelecido parece se desintegrar em uma série de ocorrências bizarramente ex- tro canônico, Leatherface, em O Massacre da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw Massacre 2, 1986). E, tal como Leatherface, esse monstro revelado em Pague para en- trar, não é nem de perto tão terrível ou mes- mo tão ameaçador quanto o próprio ambien- te que habita (nisso, há uma subversão dos códigos do slasher ao qual ambos os filmes são forçosamente assimilados) – ele é apenas uma entre as muitas peças disformes de um mecanismo anônimo cujo único propósito é perpetuar a si próprio às expensas mesmo de suas partes individuais. Talvez nada dei- xe tão evidente esse caráter autofágico que cêntricas. Tomemos dois momentos de Pa- gue para entrar em que a dinâmica da Casa dos Horrores não só opera, mas é articulada com a precisão de um tratado em forma de filme. O primeiro se dá na forma de um des- mascaramento; num acesso de raiva, o filho de um dos donos do parque repentinamente arranca a máscara do monstro de Frankens- tein que até então o havia encoberto, reve- lando, por baixo da criatura inofensiva – ré- plica barata do semblante canonizado por Boris Karloff –, um novo monstro. É curioso que Hooper repetirá o gesto de desmascara- mento na reintrodução de seu próprio mons- o clímax de Pague Para Entrar, Reze Para Sair; não apenas os adolescentes (à exceção da Final Girl) como também o Monstro e seu pai morrerão antes por efeito da própria configuração espacial da Casa do que por quaisquer atos individuais de violência. Os ícones deveras conhecidos e banalizados que povoavam a primeira metade do filme serão, finalmente, transfigurados pelo lugar maldito em um mecanismo caótico cuja ima- gem definitiva são as inumanas engrenagens que colocam em movimento os monstros de plástico e metal da Casa dos Horrores. ACIMA: CENA DO FILME THE FUNHOUSE (1981)