Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 99
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espaço subterrâneo violado pela presença
dos protagonistas tem não apenas implica-
ções narrativas ou dramáticas, mas formais:
é como se a própria textura do filme anterior
instaurada pela complacência no jogo incon-
sequente das convenções fosse tragada pelo
caos de um ambiente até então desconhecido.
Talvez seja esse uso radicalmente disruptivo
desse lócus do horror que cause a sensação
incômoda em muitos espectadores de que os
filmes de Hooper não “incoerentes”, de que
em um dado momento todo o tecido narra-
tivo estabelecido parece se desintegrar em
uma série de ocorrências bizarramente ex- tro canônico, Leatherface, em O Massacre
da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw
Massacre 2, 1986). E, tal como Leatherface,
esse monstro revelado em Pague para en-
trar, não é nem de perto tão terrível ou mes-
mo tão ameaçador quanto o próprio ambien-
te que habita (nisso, há uma subversão dos
códigos do slasher ao qual ambos os filmes
são forçosamente assimilados) – ele é apenas
uma entre as muitas peças disformes de um
mecanismo anônimo cujo único propósito é
perpetuar a si próprio às expensas mesmo
de suas partes individuais. Talvez nada dei-
xe tão evidente esse caráter autofágico que
cêntricas. Tomemos dois momentos de Pa-
gue para entrar em que a dinâmica da Casa
dos Horrores não só opera, mas é articulada
com a precisão de um tratado em forma de
filme. O primeiro se dá na forma de um des-
mascaramento; num acesso de raiva, o filho
de um dos donos do parque repentinamente
arranca a máscara do monstro de Frankens-
tein que até então o havia encoberto, reve-
lando, por baixo da criatura inofensiva – ré-
plica barata do semblante canonizado por
Boris Karloff –, um novo monstro. É curioso
que Hooper repetirá o gesto de desmascara-
mento na reintrodução de seu próprio mons- o clímax de Pague Para Entrar, Reze Para
Sair; não apenas os adolescentes (à exceção
da Final Girl) como também o Monstro e
seu pai morrerão antes por efeito da própria
configuração espacial da Casa do que por
quaisquer atos individuais de violência. Os
ícones deveras conhecidos e banalizados
que povoavam a primeira metade do filme
serão, finalmente, transfigurados pelo lugar
maldito em um mecanismo caótico cuja ima-
gem definitiva são as inumanas engrenagens
que colocam em movimento os monstros de
plástico e metal da Casa dos Horrores.
ACIMA: CENA DO FILME THE FUNHOUSE (1981)