Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Página 98
HORROR NORMALIZADO
A concepção básica de horror que per-
passa todo o cinema de Tobe Hooper pode
ser bem sintetizada num corte revelador de
Pague Para Entrar, Reze Para Sair (The
Funhouse, 1981): após fugir de casa para
visitar, escondido, um proscrito parque de
diversões itinerante, Joey se assusta ao ser
atacado por um cão cujo bote é contido por
uma cerca; um corte seco nos leva de volta
à bilheteria do parque em que se lê em néon
vibrante: Tickets. Nessa sequência simplís-
sima de dois planos, temos a suma do que
Hooper imagina como a experiência funda-
dora do horror cinematográfico e os termos
nos quais seus filmes lidarão com suas con-
venções narrativas – pode-se assim expres-
sá-la: uma ameaça, se contida em limites
claros que garantam sua fruição inconse-
quente, está pronta para o comércio. Uma
das preocupações centrais de todo o cinema
de Tobe Hooper reside no fato de que preci-
samente essa dinâmica que parece balizar o
horror enquanto gênero é também a causa de
sua própria degeneração no puro convencio-
nalismo do filme de receita no qual o efeito
do susto e da repulsa fáceis se divorcia do
elemento subversivo, caótico e desagregador
que deveria estar, desde o início, em seu fir-
mamento. A consequência derradeira dessa
“normalização” do horror é uma espécie de
domesticidade decorativa que seus filmes
tão bem retratam – Joey é a perfeita encar-
nação do fanboy, as imagens dos monstros
clássicos da Universal que povoam seu quar-
to se por um lado ainda o fascinam, não mais
o aterrorizam; no parque de diversões, um
desajeitado funcionário com uma máscara
da criatura de Frankenstein passa, desperce-
bido, pelos jovens prestes a entrar na Casa
dos Horrores. E se a primeira metade de
Pague Para Entrar, Reze Para Sair funcio-
na como um brilhante mosaico de atrações
fílmicas que constantemente subvertem e
restituem (em suma, jogam com) a relação
entre algum elemento anômalo/ameaçador
e a distância segura de seu consumo como
“representação” artística, a segunda metade
do filme será um mergulho bem mais radical
na essência mesma do projeto hooperiano.
LÓCUS DO HORROR
Quando os quatro adolescentes protago-
nistas de Pague Para Entrar, Reze Para Sair
entram na Casa dos Horrores (a Funhouse
do título original) é que Tobe Hooper, após
jogar livremente com os princípios e con-
venções do cinema de gênero, nos apresen-
ta de forma programática nada menos que
sua declaração de princípios como cineasta.
Para tanto, Hooper recorre a um dos motivos
narrativos mais comuns tanto da literatura
como do cinema de horror, a saber, a “casa
terrível” que submete seus habitantes a uma
espécie de ordem macabra e inumana. Trata-
-se de um tema que já o obcecava desde seu
primeiro longa-metragem, Eggshells (1969),
tendo sido central em seus filmes dos anos
1970, O Massacre da Serra Elétrica (The
Texas Chainsaw Massacre, 1974), Devo-
rado Vivo (Eaten Alive, 1977) e A Mansão
Marsten (Salem’s Lot, 1979), mas que só se
torna o fundamento plenamente consciente
de um projeto cinematográfico em Pague
Para Entrar. Aqui, mais do que um mo-
tivo, a Casa dos Horrores se torna o meio
pelo qual o cineasta mobiliza os símbolos
e ícones desgastados da tradição para lhes
conferir novas funções, para desestabilizar
tanto quanto possível o horror normalizado;
a ordem monstruosa e incompreensível do
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