Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 100

Outra característica deve ser salientada nos espaços hooperianos. Em Poltergeist (1982), um dos cientistas encarregados de investigar os misteriosos acontecimentos numa residência se refere a um certo fenô- meno de “bilocação” no qual um mesmo es- paço abriga duas dimensões contraditórias, uma primeira exterior, cotidiana, normal, e outra, subterrânea, correspondente ao que do transformar seus espaços de horror em universos plenamente realizados, em Pol- tergeist a própria natureza da produção não o permitiria materializar suas obsessões em imagens (um desafio conscientemente aceito pelo diretor); o roteiro requeria adesão a uma família “normal” que, à primeira vista, pouco correspondia às famílias horrendas de suas outras realizações. Não podendo realizar seu próprio universo, Hooper então o conduziu para o fora de campo, para um espaço au- sente e distinto, mas concomitante ao espaço da vida suburbana que o filme retrata – em suma, recorreu à “bilocação”. O que torna chamei anteriormente de lócus do horror. Poltergeist, filme que dirigiu imediatamente após Pague Para Entrar, Reze Para Sair, é amplamente considerado uma obra bastarda de Steven Spielberg, proponente original do projeto, coautor do argumento e do roteiro além de produtor. Embora tenha trabalha- do sob encomenda, inicialmente contratado para levar à tela o que Spielberg já havia concebido, Hooper tomou para si o projeto e impôs sua própria voz quase inteiramente através dos recursos de decupagem e ence- nação que estavam em seu controle. Se em seus filmes anteriores, Hooper vinha tentan- Poltergeist um filme tão fascinante é justa- mente essa limitação consciente que permi- tiu a Hooper desenvolver essa dicotomia de espaços opostos coexistentes (um paradoxo que alimentará sua obra posterior). Tanto a encenação quanto um habilidoso uso do som diegético, a todo momento, tensionam esses dois mundos sem, contudo, chocá-los: um travelling revelará parcialmente espaços que recontextualizam ações e diálogos; uma porta entreaberta sugere sem evidenciar que algo terrível se oculta no quarto; e até uma simples fusão sobrepondo enquadramentos coincidentes de dois interiores nos mostra BILOCAÇÕES ACIMA: CENA DO FILME POLTERGEIST (1982) 99