Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Página 101
que até a mais acolhedora das casas suburba-
nas é um ambiente em si mesmo tão genérico
e artificial quanto o parque de Pague Para
Entrar, Reze Para Sair.
A COISA MALDITA
Nos anos 1990, Hooper realizou dois
filmes essenciais de seu inventário. No pri-
meiro, Combustão Espontânea (Sponta-
neous Combustion, 1990), o protagonista,
Sam (Brad Dourif), sente em seu próprio
corpo as consequências de seu tempo; as ir-
rupções incendiárias que gradualmente o de-
generam física e moralmente surgem como
resultado das experiências com radiação que
construíram seu mundo – a ação do filme
se desenrola sobre o pano de fundo de uma
realidade alternativa em que o uso indiscri-
minado de energia nuclear se tornou uma
prática corporativa perigosamente comum.
O corpo autodestrutivo de Sam materializa
dramaticamente o contexto que o gerou. O
que Combustão Espontânea manifesta de
maneira mais clara que qualquer outro filme
de Hooper é seu interesse pela forma como
personagens tornam-se invariavelmente uma
função de seu ambiente, uma peça em um
mecanismo inumano de terror. A casa de
máquinas em Pague Para Entrar, a família
unificada mediante uma moral esquizofrêni-
ca (mais do que a qualquer de seus membros
individuais) em O Massacre, o “povo da
tevê” de Poltergeist, a distópica sociedade
da “era atômica” em Combustão Espon-
tânea: são precisamente a essas instâncias
fortemente contextuais que a atenção de
Hooper se volta; seu interesse maior é num
horror de espaços e estados de coisas, mais
que de personagens ou monstros tomados
em si mesmos. Sua outra obra-prima da dé-
cada, Mangler: O Grito de Terror (The Man-
100
gler, 1995), tem como premissa uma trama
maravilhosamente absurda envolvendo uma
máquina de dobrar lençóis assassina, her-
deira direta da Casa dos Horrores de Pague
Para Entrar. Em um dado momento, quando
a máquina atenta pela segunda vez contra a
vida de uma funcionária da lavanderia, um
dos personagens grita no fora de campo:
“Shut that damn thing off!” (Desliguem
essa coisa maldita!). Um termo tão genérico
como “coisa maldita” cresce em dimensão
quando pensamos que Hooper realizou uma
livre adaptação para a televisão, em 2006,
do conto de Ambrose Bierce que carrega pre-
cisamente esse título, The Damned Thing (A
Coisa Maldita), que se centra numa criatura
cuja própria natureza transcende a capacidade
de percepção humana. Não consigo pensar em
denominação melhor para definir essa maqui-
nação sem rosto que, nos filmes de Hooper,
são a causa primeira do horror; seus perso-
nagens monstruosos, anômalos ou simples-
mente malignos tendem, antes de mais nada,
a ser o produtos e as peças descartáveis desse
mecanismo irrefreável; a Coisa Maldita é a
maquinaria que move a Casa dos Horrores,
e as figuras macabras que a habitam são as
formas reconhecíveis, os avatares imperfei-
tos, de sua força maligna. Na galeria de tipos
hooperianos, os velhos (cujas marcas de ida-
de figuram geralmente acentuadas por uma
maquiagem pesada e propositalmente artifi-
cial) costumam ser os personagens mais in-
timamente vinculados às intangíveis maqui-
nações da Coisa Maldita – Vovô, o patriarca
de O Massacre da Serra Elétrica é o objeto
de idolatria da família e sua sobrevivência é
o objetivo maior da “moral” que fundamenta
o clã de canibais. Mas o velho hooperiano
definitivo é com certeza Bill Gartley (Rob-
ert Englund) que, em Mangler: O Grito de
Terror, estabelece um pacto com a máqui-
na assassina em troca de uma imortalidade
decrépita. Nada há nesse pacto que lembre
nem de longe uma autêntica aspiração fáus-