Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 102

tica, apenas a mesquinha sobrevivência de um velho egoísta. Em Mangler: O Grito de Terror, a normalidade e seu duplo monstruo- so por fim convergem no pacto mefistoféli- co com a Coisa Maldita, e esta não mais se resguarda num espaço subterrâneo oculto da mera vida, mas a engole e a consome – fora do pacto, há a submissão (o proletário vampirizado na lavanderia de Gartley) ou a impotência de uma alienação consciente e conformada (porque não de todo explorada) dos servidores médios do sistema (o policial tão bem personificado pela figura recurvada e melancólica de Ted Levine). O FIM DA JUVENTUDE Entre Eggshells e Mangler: O Grito de Terror, Hooper traduziu nos termos do pró- prio cinema o caminho de sua geração. O termo “tradução” deve ser ressaltado, porque o conteúdo da experiência geracional ampla que atravessa o conjunto de seus filmes rea- lizados do final dos anos sessenta ao começo dos anos noventa não se expressa de forma aberta ou “realista”, e tampouco está velado em referências indiretas; algo mais comple- xo se dá: acontece que Hooper – tal como (de maneiras distintas, mas análogas) Car- penter, Romero e Craven, para citar alguns cineastas da mesma geração trabalhando a partir de uma tradição comum de cinema de horror – transfigura tal experiência ao incor- porá-la à tessitura dramática e estilística de seus filmes e às exigências do gênero a que subscrevem. O que importa, assim, é que Hooper, à sua maneira, parece contar ao lon- go de vários filmes uma espécie de história conjectural da juventude que se vincula di- retamente à história concreta de sua própria geração de baby-boomers. Eggshells olha com extrema proximidade para o crepúsculo da rebeldia alienada dos anos 1960, para o fim de uma forma de resistência juvenil cujo modelo fora a contracultura; os elementos de gênero que pululam ao longo do filme (da presença criptoembriônica que se aloja num porão à máquina que “traga” quatro hippies para expeli-los como fumaça) soam quase como autoparódia do ideário sob os quais os personagens tentaram, sem sucesso, viver. À desilusão seguem-se as desventuras da ju- ventude blasé retratada em O Massacre da Serra Elétrica – dos já velhos ideais sobra- ram as páginas de astrologia, a liberalização do sexo é tamanho lugar-comum a essa altu- ra que pouca práxis de fato subversiva pode ser feita dela; a realidade confronta esse ideário politicamente raquítico com uma cri- se do petróleo (a falta de gasolina os motiva a permanecer nas paragens isoladas em que encontrarão a morte) e a decadência mate- rial generalizada de um jamais tão próspero countryside. Mas foi no revival conserva- dor dos anos oitenta, que essa geração veio a ser a contradição mesma de suas próprias aspirações juvenis, e pouca gente pareceu sequer se importar com o fracasso coleti- vo em realizar o que outrora se ansiou. Em Poltergeist, Hooper não precisa de mais que um travelling para expressar com exatidão e simplicidade assombrosas a magnitude do paradoxo geracional que veio à tona nesse período: em seu quarto, o jovem casal fala de amenidades suburbanas e fuma maconha; a câmera descreve um lento e constante movi- mento lateral de tal forma que vemos primei- ro a mãe (JoBeth Williams) com um livro de Jung numa mão e um baseado na outra e, em seguida, o pai (Craig T. Nelson), lendo um livro sobre Ronald Reagan (porque não foi outra a geração que o elegeu). Trata-se de um dos planos mais extraordinários de toda a carreira de Hooper; o movimento sustido da câmera que atravessa a cama, ao nos le- var de uma ponta a outra da contradição, tem um impacto revelatório para o espectador e, 101