Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 94

Mesmo depois de uma remixagem feita em 2003, a precariedade do som direto ain- da pode ser percebida. Na curta sequência de diálogos que ocorre dentro do cemitério, logo após os créditos de abertura, a perda do eixo do microfone é audível em alguns momentos, quando os atores giram a cabeça enquanto falam. Em outros momentos do fil- me, que tiveram que ser dublados, a sincro- nia labial fica comprometida, graças à falta de tempo e de recursos técnicos. Na fase da pós-produção, em uma épo- ca anterior à criação do termo sound design, apenas três pessoas trabalharam na pós- -produção de O Massacre da Serra Elétri- ca. Sallye Richardson, que montou o filme, fez em paralelo também a edição de som; Wayne Bell e o próprio diretor, Tobe Hoo- per, criaram a música. De acordo com as memórias compiladas por Stefan Jaworzyn (2013), toda a pós-produção de O Massacre da Serra Elétrica foi realizada na casa de Tobe Hooper. Ele conseguiu uma movio- la Steenbeck emprestada e instalou na sala de jantar, enquanto Wayne Bell reuniu uma série de instrumentos exóticos de percussão, acrescentou objetos cotidianos (ossos de animais, cenouras, pepinos, moedas de pra- ta, sinos, apitos, pregos e pequenas peças de metal e madeira) e levou tudo para um quar- to da mesma casa. Todas as noites, durante seis semanas, o diretor do filme ia da sala ao quarto e vice-versa, trabalhando na monta- gem e no som ao mesmo tempo. O pequeno número de pessoas confina- das na mesma casa permitiu experiências que, em um filme normal, não seriam pos- síveis. Som e imagem foram pensados como uma coisa única, indivisível – a perfeita concretização do conceito de audiovisão de Michel Chion (2011). Em outras palavras, a abordagem improvisada, desleixada, quase hippie, gerou um pensamento criativo inte- grado entre som e imagem bastante raro no cinema. A sequência dos créditos de aber- tura, que chama fortemente a atenção para o som do filme, é um ótimo exemplo dessa fluidez. O filme abre com uma série de ruí- dos assustadores que ecoam sob a tela negra, acompanhados de notas longas e fantasma- góricas marteladas ao piano e distorcidas eletronicamente. Colocar sons junto com uma tela negra, como se sabe, é uma técnica tradicional usada por sound designers para aguçar a escuta do espectador, direcionando sua atenção para a banda sonora do filme. A tática de unir sons percussivos e ruí- dos produzidos como foley a notas musicais eletronicamente modificadas foi repetida ao longo do filme inteiro. Os sons ouvidos du- rante o jantar da família canibal no terceiro ato, em que Leatherface (Gunnar Hansen) e os parentes molestam a aterrorizada prota- gonista Sally (Marylin Burns) deixam real- mente os nervos à flor da pele: zumbidos, barulhos e chiados invadem o ambiente de todos os lados, enquanto os canibais gru- nhem de modo sinistro, e a moça amarrada e amordaçada geme e respira pesadamente em completo terror. Todas essas cenas funcionam com efi- ciência no contexto narrativo do filme, mas talvez o exemplo mais assustador de sound design esteja na sequência em que Leatherfa- ce aparece pela primeira vez, matando um ca- sal de jovens. Sem nenhum diálogo, a sequên- cia inteira é sublinhada pelo som ritmado, monótono e insistente de um gerador elétrico. Notas de piano desaceleradas eletronicamente pontuam a cena, quando os personagens en- tram na casa e se tornam mais vulneráveis. O cacarejar de uma galinha adiciona estranheza e tensão ao momento, antes que uma panca- da seca de um martelo na cabeça dê cabo de Kirk (William Vail), e os gritos femininos de pavor – a assinatura sonora mais reconhecível do filme – dominem o ambiente. 93