Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 93

sonora 1 original, reproduzida em seis canais na sala de projeção, sublinhava e ampliava a experiência de horror e medo oferecida pelo filme. Talvez esteja no som a principal con- tribuição do longa-metragem para a cultura cinéfila: a construção meticulosa de uma so- noridade sombria, visceral e aterrorizante, através de técnicas arrojadas e pouco pratica- das na época, em especial a utilização de prin- cípios da musique concrète 2 para dissolver ou apagar as fronteiras (bastante rígidas até aque- le momento, em se tratando de produção cine- matográfica) entre música e efeitos sonoros. Neste texto, procuro reconstituir breve- mente a experiência da criação dos sons que ouvimos na trilha sonora de O Massacre da Serra Elétrica, buscando ressaltar algumas das razões pelas quais o filme merece ocupar um lugar na vanguarda das experiências sonoras mais interessantes do cinema norte-americano. Antes de tudo, é preciso detalhar um pouco o contexto de produção do filme de Tobe Hooper. O projeto de O Massacre da Serra Elétrica foi concebido como uma pro- dução independente de apenas US$ 60 mil, custeada pela própria equipe de produção, formada principalmente por estudantes de cinema da universidade de Austin, no Texas (EUA). Essa turma jovem começava a cons- truir carreiras ligadas à área do audiovisual. Nenhum membro da equipe, com exceção de alguns atores (que já tinham experiências prévias no teatro ou na televisão local), re- cebeu salário para trabalhar durante as seis semanas de filmagem. Várias pessoas que exerceram funções técnicas importantes do longa-metragem desistiram de fazer cinema após a experiência nos calorentos sets de fil- 1 Entendemos a expressão “trilha sonora”, neste texto, como o conjunto de todos os sons reproduzidos juntos com a imagem em movimento, o que inclui diálogos, efeitos sonoros e música. 2 A música concreta, estilo musical criado em 1948 por Pierre Schaeffer, parte do conceito de que todos os sons do mundo, a depender do contexto em que estão inseridos, podem ser musicais. 92 magem, e mudaram para outras áreas profis- sionais após a realização do filme. A diretora assistente e co-montadora, Sallye Richard- son, foi uma dessas pessoas que nunca mais trabalhou com audiovisual. Em O Massacre da Serra Elétrica, porém, Richardson fez a edição de som – usando uma moviola Steen- beck instalada na mesa de jantar da casa do diretor – e supervisionou a mixagem sonora, realizada por técnicos do estúdio de grava- ções Todd-AO, em Los Angeles (JAWOR- ZYN, 2013). A equipe de captação do som direto era formada por dois rapazes sem experiência na área: Ted Nicolaou e Wayne Bell. Os dois di- vidiram as tarefas por afinidade com as exi- gências do trabalho. Nicolaou (que exerceria a função de técnico de som direto em dois outros filmes, antes de mover-se em variadas funções até se tornar diretor de filmes de bai- xo orçamento, no final dos anos 1980) prefe- ria ficar à distância, e por isso ficou encarre- gado de operar o gravador Nagra. Bell (que também trabalhou na pós-produção criando a música e o foley, junto com o próprio Tobe Hooper) optou por exercer a função de micro- fonista. Os dois tinham uma mesa de mixa- gem colocada sobre um carro de golfe, mas como nenhum dos dois sabia operar o equi- pamento com precisão, somente a usaram em uma sequência, filmada dentro de um carro (e exibida no primeiro ato). Nas demais cenas, foi usado apenas um microfone shotgun, plu- gado diretamente no Nagra: Microfonar com o boom é mais próximo do balé porque seu parceiro de dança é o ator; os atores e a cena que eles estão criando bem na sua frente: ela se move para cá, para lá, fica meio alta aqui, calminha ali e muda a cada performance. Você sai com a sensação de ser a pessoa mais íntima do filme que está aconte- cendo na sua frente – chega primeiro aos seus ouvidos (BELL in JAWORZYN, 2013, P. 71).