Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 92

RECIFE, 24 de outubro de 2014. A longa fila de cinéfilos em frente ao decano Cinema São Luiz, mais antiga (e maior) sala de exibi- ção da capital pernambucana em atividade, dá uma volta inteira no quarteirão em frente ao Rio Capibaribe, cartão postal da cidade. Tra- ta-se da noite de abertura da sétima edição da Janela Internacional do Cinema, mostra cine- matográfica que alterna sessões competitivas de filmes inéditos e exibições de clássicos da sétima arte. Muitos dos presentes na fila estão intrigados com o programa da noite. Eles não entendem o motivo para que os organizadores tenham programado a exibição de uma cópia restaurada de O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974), de Tobe Hooper. Para esses detratores, o pri- meiro longa de Tobe Hooper não faz parte do cânone de grandes obras do cinema. Eles não sabem ainda, mas essa opinião irá, para mui- tos deles, mudar em questão de minutos. De fato, não há muitas dúvidas atualmente a respeito da importância história do filme para o cinema de horror. Produzido aos trancos e bar- rancos, em meio a um emaranhado de acordos jurídicos que oscilavam entre o ingênuo e o cri- minoso, O Massacre da Serra Elétrica deixou um rastro de escândalo por onde foi exibido, foi objeto de proibição em países com a Inglaterra, e só alcançou o status de obra cult por causa da admiração sem reservas de um punhado de fanáticos – o tipo de público para o qual Jef- frey Sconce cunhou a definição de paracinema, definida como “uma contraestética de sensibili- dade subcultural [...] que deseja valorizar todas as formas de lixo cinematográfico – filmes que têm sido expressamente rejeitados, ou simples- mente ignorados, pela cultura cinematográfica legítima” (SCONCE, 1995, p. 372). Isso posto, e embora seja um dos poucos títulos a marcar presença no acervo do pres- tigiado Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (EUA), O Massacre da Serra Elétri- ca ainda é recebido com reserva pelos ciné- filos mais tradicionais, para quem filmes de horror costumam fazer parte de uma espécie de segundo escalão do cânone cinematográ- fico. Daí o “pé atrás” de parte significativa do público recifense que lotava a sala, na noite específica que narro aqui. Foram pre- ciso, contudo, poucos minutos de projeção para que os risos de escárnio desapareces- sem, para dar lugar a uma profunda, visce- ral e coletiva experiência genuína de horror cinematográfico. Revistas, jornais e blogs, publicados nos dias que se seguiram, trouxe- ram relatos como o texto a seguir, escrito por Júlio Pereira, estudante de Cinema da Uni- versidade Federal de Pernambuco e um dos escritores selecionados pela coordenação do evento para frequentar uma oficina de crítica cinematográfica durante o evento: Há alguns anos, eu tinha certo receio com filmes de terror. Gostava de um ou ou- tro cânone, mas ainda guardava um misto de medo e preconceito com o gênero. Des- de sempre, porém, um grande amigo meu, Diego Robert, foi um fã convicto do que de- finitivamente não me atraia no cinema. Foi justamente ele quem me emprestou o DVD de O Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper, recomendando fortemente. [...] Achei tosco, inofensivo do ponto de vista do medo, malfeito. Isto foi há alguns anos – não saberia dizer quantos. E, caramba, como eu estava errado. [...] Por isso, devo, publica- mente, desculpas a meu grande amigo: tudo o que você falava sobre esse clássico era a mais pura verdade (PEREIRA, 2013). O texto citado, entre outros relatos simi- lares feitos tanto de forma oral quanto escrita (em redes sociais e blogs), traz em seu corpo referências elogiosas à maneira como a trilha NAS PÁGINAS ANTERIORES, FOTO DE TOBE HOOPER (POR SEBASTIAN KIN) E CENAS DE O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (1974) 91