Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 84

A consistência e solidez da narrativa de Tourneur passam por – além da plena inca- pacidade do diretor de elaborar uma elipse que seja pobre ou deflagre perda de interes- se – manter o sobrenatural nas imediações de quaisquer que sejam as situações trans- correntes através de breves figuras associa- tivas ou recursos sonoros agregados a elas. Os tambores inalcançáveis no extracampo para além do Fort Holland, a canção trágica e de proporções quase mitológicas do can- tor folk-caribenho-vodu cantando não mais que a iminência da morte e da putrefação em A Morta-Viva, a cartomante e o con- teúdo macabro que o ás de espadas evoca, usado como motivo visual quando determi- nada personagem se encontra nos seus últi- mos momentos de vida, bem como o irmão mais novo da primeira vítima do leopardo, momentos antes do assassinato de sua irmã, fazendo sombras de felinos na parede em O Homem-Leopardo num dado momento fazendo avançar essa sombra sobre a irmã amedrontada, bem como a presença da peça de decoração (do velho rei que varreu o povo felino da Sérvia, atravessando um grande gato com sua espada) no apartamento de Ire- na em Cat People, que vai ganhando caráter cada vez mais sinistro a medida que a real proporção das chagas do passado da perso- nagem se torna mensurável. Na constância, polidez e equilíbrio do sórdido Dr. Karswell (britânico evidentemente, de A Noite do De- mônio), Tourneur acaba por encontrar o ex- poente máximo da síntese entre o sombrio pelo paganismo e o iluminado pela razão, pois enquanto o filme mergulha nas sombras de sua mansão as falas do personagem se tor- nam voláteis tanto para o lado da superstição quanto para o exercício do blefe. Porém nem sempre a real extensão desses recursos pode ser avaliada em sua abrangência total no horizonte de eventos. O mágico e o pequeno pedaço de papiro com encantamentos de magia negra para invocar o demônio em A Noite do Demônio, é exem- plo disso até certa altura, quando ainda não é estabelecida relação direta da evidenciação do papiro com a aparição do demônio. A or- dem da exposição e montagem paralela de certas sequências tem relação direta na efe- tivação da racionalização de causa-e-efeito; quando Tourneur deixa claro que não opera por meios racionais de causalidade como na implacável sequência de ritual vodu de A Morta-Viva, pois a exposição da ritualística e do que aquilo denota é de abordagem si- milar ao documentário etnográfico de Jean Rouch, Os Mestres Loucos (Les Maîtres Fous - 1956), ou seja, imagens portadoras de uma grandeza que se cristaliza independen- temente das adjacências narrativas impostas pela história que está sendo contada (no caso de Tourneur) ou das cartelas inicias e voz off (no caso de Rouch). A justificativa para o filme passa a ser sublimada, de contar uma história ou trans- mitir informação a se dedicar à hombridade de registrar a existência daqueles corpos no espaço, a confluência de seus movimentos e a integração de seus gestos. Em A Morta-Vi- va não seria exagero considerar que Tour- neur nos repele das tentativas mais ínfimas de explicações relacionadas ao que ocorre de fato naqueles rituais pois os únicos que tentam buscar explicações são justamente os mesquinhos Holland, que do alto da sua sordidez vinham impondo certos dogmas que sem demora caíram por terra. Por todo o filme, Tourneur sistematiza setpieces que servem como séries de vetores antagôni- cos. Após uma cena com carga no vetor ceticismo, vem outra com carga assertiva, endossando o sobrenatural. As implicações disso serão dimensionadas na iminência da conclusão do filme por meio de montagem paralela. A utilização da montagem pode ser “in- visível”; é o caso mais frequente no filme 83