Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Seite 83
os protagonistas encerram dentro de si um
ceticismo que será cerceado pelas evidências
do ambiente. Em Sangue de Pantera Irena
cede ao instinto e a resolução é a morte, a
saída do doutor Holden será a resignação e
sua resolução é a isenção. Em A Morta-Vi-
va, entretanto nos deparamos com um filme
em que este fator é tão problematizado quan-
to poderia. O consenso na ilha entre a popu-
lação é de encarar o sobrenatural como parte
do cotidiano. Dos portões do Fort Holland
para dentro, entretanto, temos um núcleo de
personagens cujas conclusões acerca desses
assuntos é falseada a todo momento. Temos
os funcionários, que são parte da população
nativa da ilha, e a família de proprietários,
atormentados por uma tragédia cujas pro-
porções flutuam entre o concreto e o etéreo
durante todo o filme, sem jamais deixar mar-
gem para que possa-se inferir uma conclusão
acertada sobre a moral daqueles elementos.
A mais transparente nesse quesito seria
a matriarca Holland, que em dado momento
aparenta manter toda a mística da ilha sob
uma fachada, e através da aplicação de co-
nhecimentos básicos de saúde e higiene faz
os nativos darem credibilidade de curandeira
à mãe Holland. No entanto esta personagem
se retrata mais adiante, dizendo que na ver-
dade acredita no vodu e ingenuamente lan-
çou uma maldição sobre sua nora, Jessica,
que se encontra em estado vegetativo e era
motivo de discórdia entre a mãe e os filhos.
No fim das contas, o mais próximo que se
pode chegar de uma definição seria um mis-
to da isenção vista em A Noite do Demônio
e do render-se ao sobrenatural, resultando em
mortes, como foi visto em Sangue de Pantera.
O cenário mais singular do fator foras-
teiro está em O Homem-Leopardo, em que
a ambiência estrangeira está em todo canto,
pelo fato de o filme se passar numa cidade
fronteiriça com o México. O suposto pavio
do distúrbio, o leopardo, este sim é trazido
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de fora da cidade, porém no meio do caos
que é a série de assassinatos e a transitorie-
dade entre núcleos de personagens e pontos
de vista que acompanhamos o que final-
mente acaba se sobressaindo é uma curiosa
autorregulação dessa pequena cidade frente
às anomalias. O filme mais sanguinário e ca-
ricato de Tourneur é também o mais pujante
e seguro de si, onde os eventos se resolvem
dentro do limite razoável da plausibilidade,
ainda que dentro de cada uma das seções
acompanhando um coadjuvante a construção
do suspense seja feita de modo a fragmentar
as expectativas na divisão entre o verdadeiro
e o falso e a própria encenação seja encar-
regada de fomentar este tipo de indagação.
Na Ilha St. Sebastian de A Morta-Viva,
as sombras das palmeiras desejadas pela
enfermeirinha Betsy não estão lá. A predo-
minância é de cana-de-açucar, para os enge-
nhos dos Holland, provavelmente. Mal há
palmeiras. Mas mesmo que lá estivessem, a
própria Besty prefere a sombra do guarda-sol.
A rápida conversa com o cocheiro ou
“como introduzir o sobrenatural no cinema”:
Ali ficamos sabendo que a noção de mor-
te/vida/existência para o povo negro de St.
Sebastian é diferente do usual. A figura de
proa, provavelmente de algum antigo navio
negreiro, chamada Ti-Misery (nome não só
mais sugestivo que o do morto-vivo-guarda-
-costas do Houmfort vodu, Carrefour – En-
cruzilhada, em francês) vive no jardim de
Fort Holland. Ao contestar, a personagem
indaga se a figura estaria viva ou não. A
resposta é uma negativa, mas será perceptí-
vel mais adiante que isso não implicará em
afirmar um estado de não-vida ou não-exis-
tência pelo personagem do cocheiro. “Não,
dona. É o mesmo que foi desde o começo”.
Cada palavra, inflexão e sugestão de possibi-
lidades é uma curva súbita nos labirintos en-
genhados pelo diretor. Tourneur nos pegará
sempre pelo não-dito e não-visto.