Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 76
essa velocidade, a eficiência, sentimos que
não há erro em tal “máquina”, pois a intensi-
dade da fala nos segura.
Em Coal Face, o filme começa com
uma narração sobre as minas de carvão da
Grã-Bretanha, com imagens externas destas
minas, suas grandes construções, montanhas
de carvão, transportadores, fios, canos, rodas
girando. A narração é tensa, acompanhada por
uma música que potencializa a tensão, notas
agudas pontuadas por graves, tambores, pra-
tos. A voz possui uma rigidez. Já na próxima
cena, a rigidez some, a voz é mais suave, me-
nos potente, e a narração é sobre geografia,
onde há minas, quantos trabalhadores e a pro-
dução. Ao fundo, começa a surgir um coro de
mineradores com percussão a dar ritmo.
Coal Face é outro filme didático do
GPO, portanto precisa ter o elemento ex-
plicativo, que é essencialmente a narração
aqui. Cavalcanti garante a explicação por
um único elemento, enquanto os outros (tan-
to imagéticos quanto sonoros) ficarão livres
e maleáveis para ele, e não subalternos. E,
mesmo assim, a narração se dissolve no fil-
me, por causa da tonalidade da voz, ritmo,
as pausas, e como ela interage com as outras
vozes, os ruídos, tudo formando uma música
muito bem pensada.
Esta percussão (um tambor que lembra a
batida de picaretas) dará o ritmo para a pró-
xima cena (tanto o som quanto a montagem).
É o momento de maior força do filme, para
mim. Os mineradores, o elemento humano,
são mostrados pela primeira vez, em um
plano de luz recortada e dura, com o enqua-
dramento tortuoso, que enfatiza as sombras
que fazem na parede. Caminham no ritmo da
percussão e fazem um coro rígido e melan-
cólico, pontuado de gritos. Cavalcanti entra
no universo dos mineradores a partir de seu
ritmo e do coro, a partir da essência dos sons
que são produzidos por eles (o bater da pica-
reta e o ritmo mancado).
Logo a narração, novamente tensa, vol-
ta, e é sobre as adversidades que os mine-
radores enfrentam e os equipamentos que
dispõem. Há uma música que fica mais tensa
a cada segundo, e quanto a narração é sobre
a forma de trabalho, o coro volta, e nos dá
uma sensação de desconforto junto da ima-
gem sufocante que Cavalcanti nos mostra da
mina, com as pedras caindo, os mineradores
agachados e sem espaço batendo nos veios
da terra.
No próximo momento, há o único diálogo
do filme, que é totalmente ilustrativo: não nos
informa nada sobre as minas ou os minerado-
res, o diálogo simplesmente nos mostra uma
situação, que é o horário de lanche e como o
minerador se comporta neste momento, as pa-
lavras são indiscerníveis, pois não precisamos
ouvi-las para entender a cena.
Depois do lanche, o trabalho volta com
o coro e a mesma música, os mesmo gritos,
a tensão continua. E ao mostrar o trabalho
da máquina que auxilia os mineradores, a
narração é sobre morte. O elemento humano
é recortado, subalterno, a máquina é centra-
lizada. Agora, a imagem volta para o solo,
e na passagem, vemos rodas girando, cabos,
máquinas em pleno funcionamento, com a
intensidade aumentando a cada segundo, até
que o homem puxa a alavanca, e tudo para.
Os mineradores saem da mina, vão para
suas casas. O coro agora é de mulheres, uma
voz muito mais suave, menos embrutecida.
A imagem de rodas, pedras e picaretas some,
e o que vemos é a natureza, casas construí-
das. Vemos várias panorâmicas que saem de
morros de carvão ou chaminés, e param em
árvores, nos mostrando a transição que faz o
minerador no final do dia. O coral feminino
nos associa a algo sensível, algo da natureza.
Na reta final do filme, a narração é sobre
o transporte do carvão. Primeiro o trem, com
a percussão fazendo o ritmo, e o assobio hu-
mano nos associando a ele. Então temos uma
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