Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 77

carroça, com o mesmo ritmo da percussão e os cascos da pata do cavalo dando um ruído ritmado; enfim, nesse momento, Cavalcanti associará o som dos transportes e das máqui- nas, seu ritmo, sua essência e sua sincronia com sons não-diegéticos (a percussão), ou fará diretamente do ruído que esperamos de certa máquina a outro ruído (como os pratos no momento em que a escavadeira agarra o carvão). Finalizando o filme, a frase do iní- cio é repetida, e este termina com a voz dos mineradores em coro. Alberto Cavalcanti, em Night Mail uti- liza dos ruídos daquilo que é retratado não só para fazer a ambientação (algo que já faz com maestria), mas vai muito além, utiliza destes ruídos para comunicar, para fazer o espectador sentir a intensidade do trem. Ele não se importa com o diálogo didático im- posto ao longo do filme, o que ele quer é fa- zer música com os ruídos e banir a fronteira entre voz, ruído e música, pois, por exemplo, se baseia no andamento do trem sobre os tri- lhos para dar ritmo à declamação do poema simplesmente se referindo à essência deste som que ficou em nossa mente, a sua conti- nuidade, ao seu andar monótono. Já em Coal Face, a voz, como já dito, é figurativa, simplesmente mostra uma situa- ção dos mineradores (ao contrário de Night Mail, em que a voz possui grande parte do processo de explicação, juntamente com a narração), e a narração é pura explicação, ela concentra todo este processo, mas ao mesmo tempo não fica rígida e impassível, pois tam- bém se tensiona e relaxa, de acordo com o que quer ser mostrado. E se em Night Mail, existe uma separação entre ruído puro e ruí- do musicado, ou se há a nossa surpresa ao ouvir um ruído introduzido na banda sonora como música, em Coal Face, esta é a ordem, é isto que carrega o filme do começo ao fim, seja o ruído diegético e pontual ou não. 76 Cavalcanti se apropria dos elementos sonoros do ambiente que é documentado, recria e reinventa estes sons de forma a co- nhecermos os personagens pelos seus sons (seus sentimentos, sua forma de relação com o mundo), e além disso, faz da realidade e dos sons “diegéticos” uma partitura musi- cal, e não somente por alteração do ritmo da montagem, mas principalmente pela forma como esses sons (e não-diegéticos também) interagem entre si. ACIMA, CENA DE NIGHT MAIL ABAIXO, DUAS CENAS DE COAL FACE