Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 75

chama a atenção aquilo que não vemos, já que a imagem nos remete à inteligência e ao discernimento. Comecemos por Night Mail, que, apesar de ter sido o último a ser realizado, Alberto Cavalcanti não participou como diretor, ape- nas como diretor de som. Podemos ver no filme a sua mão influenciando nas cenas, na montagem, e outros fatores, mas sua presen- ça está essencialmente na banda sonora. Night Mail é um documentário cheio de mise en scène, sem dúvidas. Há a infor- mação objetiva lançada pela voz over jun- tamente com a vontade de ensinar algo ao espectador, fatores típicos do documentário explicativo. E há também a poesia da mon- tagem, da fotografia, da encenação. É um filme único, que intercala a informação que pede uma instituição do Estado com a expe- rimentação cinematográfica. O filme mostra o processo do correio ferroviário desde a sua saída até a entrega, e junto de seu apito agudo característico, no decorrer deste processo, outros sons são agre- gados, como as alavancas, os sacos com cartas e seus encaixes, os trilhos, as rodas em mo- vimento, as barulhentas e esfumaçadas esta- ções. Assim, com todos estes ruídos, Alberto Cavalcanti cria um personagem conciso, mais do que centralizado pelo som, afinal, além de diálogo e narração, não ouvimos outro som que não seja vinculado ao trem, que não seja metal, batida, roda, seco, frio e duro; é só no- tarmos que no campo mostrado no início, não há ambientação nenhuma, a fala está pratica- mente num vazio sonoro. A banda sonora, quando o ser humano é mostrado no ambiente de trabalho do correio ferroviário, nos apresenta um ser voltado à criação e reprodução de ruídos. Quando puxa enormes alavancas, toca sinetas, bate a picareta no chão da ferrovia, as ações pos- suem um tempo no quadro e uma presença sonora que enfatizam o processo humano. 74 Quanto à fala, é basicamente informativa: os funcionários dos Correios, ao conversarem, nos explicam os processos que perpetuam o correio ferroviário, com falas aparentemente informais e comuns sobre o próprio trabalho. Com certeza, o maior momento do fil- me é o poema musicado de W. H. Auden. Há toda uma preparação do espectador para esse momento, mesmo que este não saiba: em dois momentos, no começo e no meio, há uma narração no meio dos ruídos do trem, no primeiro momento o narrador gritando informações em dois versos e então toca o apito do trem encerrando a fala e a sequência e, no segundo momento, o narrador basica- mente declama mais informações no ritmo do trem, com os versos intercalados com sirenes, batidas de metal e fumaça, o que cria uma musicalidade tremenda, diferente do primeiro momento. Outro fator também prepara o espectador: o enorme tempo que ouvimos o trem deixa na nossa mente o seu ritmo e andamento, o que é importantíssimo para a identificação da fala no poema como este andamento, como o trem em si. Para introduzir o poema, Cavalcanti in- sere um silêncio, somente o barulho do vento que some com o surgimento de uma percussão que acompanhará a voz declamando. É impor- tante perceber que não é a percussão que dá a sensação da locomotiva, e sim o poema sendo declamado sem pausa e num único tom. No meio da primeira estrofe surgem cordas, que terão seu momento de dominância somente na mudança de estrofes, quando há um silêncio da voz, e logo que esta volta, as cordas fica- rão novamente submetidas. Então temos uma pausa do poema musical para uma narração quase gloriosa que dura pouco, quando este volta frenético, num ritmo mais acelerado, a voz não para, as cordas acompanham, e te- mos a sensação do correio ferroviário rápido e eficiente que é passada no decorrer do filme pelas falas, pela narração, mas agora sentimos