Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 74

ALBERTO CAVALCANTI é um cineasta de inúmeros projetos: começou com a van- guarda francesa, dirigiu adaptações france- sas e portuguesas nos estúdios Paramount nos arredores de Paris, substituiu Robert Flaherty no General Post Office Film Unit (GPO), assumindo também os cargos de en- genheiro de som e direção, dirigiu com gran- de maestria nos Estúdios Ealing, e veio ao Brasil tomar rédeas do projeto da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Quando começamos a ouvir seu nome, temos a impressão de uma sombra, um fan- tasma que vagou por diferentes cinemas, um nome escondido na historiografia oficial do cinema. Com o tempo, percebe-se a profun- didade deste cineasta, e como sua presença sempre foi clara e forte para aqueles que in- fluenciou. Alberto Cavalcanti, um cineasta errante, mudou a história do cinema francês, britânico e brasileiro, no mínimo. Dois filmes importantes na obra de Ca- valcanti e na cinematografia mundial são Night Mail (1936), de Harry Watt e Basil Wright; e Coal Face (1935). Os dois fazem parte de uma série de documentários didáti- cos em que Alberto Cavalcanti participou no General Post Office Film Unit, uma subdivi- são do UK General Post Office voltada para a produção destes documentários. Ele trouxe para estes filmes um ar de novidade, princi- palmente pela sua relação com o som, que tiraram a provável monotonia do didatismo; então, o espectador recebia a mensagem e ao mesmo tempo se surpreendia pela beleza so- nora (principalmente) dos filmes. Antes de entrar para o GPO, Cavalcanti havia passado por duas experiências distin- tas: a vanguarda francesa e as adaptações comerciais da Paramount na França, e cada uma delas forjou sua visão sobre o cinema AO LADO: ALBERTO CAVALCANTI até aquele ponto (de certa forma, a vanguar- da francesa o ajudou a pensar artisticamente e os estúdios deram uma base técnica enor- me), e isto foi importantíssimo para se sair bem na tarefa de orientador nas produções do GPO. “...as imagens e os sons são captados aos pedacinhos, através de uma máquina, e antes de serem entregues ao público, como petit-pois e pêssegos enlatados, passam por uma quantidade enorme de outras máqui- nas. A câmara, por sua vez, representa tanto quanto os atores. O microfone também. As árvores, os trens, as nuvens, um aquário, to- dos têm papeis” (CAVALCANTI, 1937). Com esse trecho, podemos começar a entender o que pensava Alberto Cavalcanti sobre o som no cinema: é mais um artifício da linguagem, está intrínseco ao cinema, como já sugere no início do capítulo “O Som” de Filme e Realidade, o qual está in- serido este trecho, pois nunca houve cinema sem som, e mesmo quando a música fazia o papel de abafar o barulho dos projetores, a escolha não era arbitrária, escolhia-se a mú- sica certa para emocionar o espectador. Som é separar algo específico da realidade. É importante também entender a sua intenção no uso dos ruídos. O terceiro ele- mento da banda sonora, como ele chamava os ruídos, pode ser usado de forma criativa para obter efeitos na emoção do espectador e, para isso, pelo menos nestes dois filmes, ele os trata como música: procura nos ruídos daquilo que é retratado uma nota dominante, que levará a composição para frente, pon- tua o andamento com ruídos específicos e, muito importante, trata a imagem a partir da composição para que, mesmo que não haja sincronia, a banda sonora não pareça desco- nexa e tire a atenção do espectador. O ruído não sincronizado tem um valor abstrato e deixa a imaginação agir sobre ele, pois nos 73