Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 70

ferramentas e, muitas dessas ferramentas po- dem vir também da base da música concreta, como a escuta reduzida. Michel Chion vai falar sobre três tipos de escutas: a escuta cau- sal – onde ouvimos que buscamos a causa deste som; a escuta semântica – que se refere a um código ou a uma linguagem para inter- pretar uma mensagem, como as vozes, por exemplo, e a escuta reduzida – que é a escuta que trata das qualidades e das formas espe- cíficas do som, independente da sua causa e do seu sentido. A escuta reduzida é uma importante ferramenta na “composição” da banda sonora de um filme, pois: (...) a escuta reduzida tem a imensa van- tagem de abrir a escuta, e afinar o ouvido do diretor, do editor de som ou do técnico, que assim conhecerão o material o qual de que se servem e o dominarão melhor. Na verdade, o valor afetivo, emocional, físico e estético de um som está ligado não somente à explicação causal que falamos antes, mas também às suas qualidades especificas de timbre e de textura, sua vibração. Da mesma forma que no plano visual, um realizador ou um diretor de fotografia tem muito a ganhar aperfeiçoando seu conhecimento da matéria e da textura visuais, mesmo que nunca façam filmes abstratos. 1 Consequentemente, este domínio pos- sibilita uma melhor manipulação dos sons para alcançar os objetivos da obra. No fil- me Backdraft - Cortina de Fogo (Backdraft, 1991), de Ron Howard, por exemplo, o efeito de fogo foi composto por estrondos, gravetos quebrando, rangidos, estalos e ex- plosões distorcidos, “mas foi a adição do grunhido do fundo da goela de um gato re- belde que deu a verdadeira qualidade amea- çadora às chamas de fogo”, comenta o David 1 CHION, M. L’audio-vision: Son et image au cinéma. 2° edição. Paris. Armand Colin, 2005. (livre tradução) Sonnenschein, o sound designer do filme; isto é, o fogo neste filme não tem só som de fogo, mas uma série de sons que criarão o “efeito de real” deste fogo, neste momento, nesta situação. Voltando a pensar nos sons que com- põem a trilha sonora, temos os ruídos, as vozes e a música. Evidentemente, podemos encontrar no cinema filmes que não conta com esses três elementos, filmes sem vo- zes, sem música, sem ruídos, ou mesmo sem dois deles (os filmes Koyaanisqatsi (1982), Powaqqatsi (1988), dirigidos por Godfrey Reggio, não tem vozes nem ruídos, A Fita Branca (Das Weiße 2009), de Michael Haneke, não tem música). Existem diferen- tes territórios sonoros, e muitas vezes um protocolo “industrial” de construção sonora coloca a voz como elemento semântico, a música como elemento emocional e os ruí- dos como elemento topográfico. Portanto no cinema podemos facilmente sair deste pro- tocolo e “subvertê-lo”, colocando os ruídos como elemento semântico, as vozes como elemento topográfico e assim por diante. Na hora de compor, de fazer a criação de som de um filme, podemos trabalhar com que tipo de informação cada som pode trazer, como utilizá-los e inseri-los no filme. Outra ferramenta muito importante é o uso dos espaços sonoros. O cinema tem uma especificidade que consiste em haver somen- te um lugar de imagem, um espaço definido que é o quadro. Mas, se o quadro é um limite visual onde as imagens acontecem, esse li- mite não existe no som. Na construção sono- ra, as possibilidades são bem maiores, pois temos os sons que acontecem dentro deste quadro, o que Chion vai chamar de som IN, mas também os sons que acontecem fora do quadro (OUT), e ainda os sons extra quadro (OFF) que se situam em um espaço extra- -diegético. Eu ainda acrescento como pos- sibilidade de construção os sons subjetivos, 69