Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | Page 71

que estão no limite do diegético e do não diegético: quando ouvimos o pensamento de um personagem – informação que somente ele e o público ouvem – ele pode estar em quadro, mas subjetivamente, ele faz parte da diegése do personagem. Quando falo desses espaços sonoros no cinema, a questão acus- mática é tratada de um modo diferente de Chion. No caso do som em quadro, o fato de não vermos a fonte sonora não significa que ela não esteja ali: se ouvimos o som de um piano em um rádio, não vemos o piano, mas o rádio está em quadro. O trabalho de cria- ção e manipulação nesses espaços sonoros é uma ferramenta importante na construção de mundos, na representação de sensações e no processo de significação de cada som dentro do filme. Para exemplificar a utilização dos espa- ços sonoros, trago aqui a análise de algumas sequências: 1) em uma cena do filme Meu Tio (Mon Oncle, 1958) Jacques Tati faz um jogo com sons em quadro que não ouvimos. O marido conversa com a esposa enquanto ela mani- pula uma máquina moderna na cozinha, não ouvimos sua voz, somente os zumbidos barulhentos; ele sai e bate a porta, som que chama a atenção da esposa que desliga a máquina e vai atrás do marido; outro ruído constante e alto começa fora de quadro, e quando ela chega ao banheiro o marido faz a barba, ela fala com ele, mas só ouvimos o som do barbeador; novamente vemos uma fonte sonora, mas não ouvimos o som que é coberto por um barulho incômodo, acentuan- do a dicotomia entre o mundo moderno versus mundo tradicional que o filme propõe. 2) no filme Psicose (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock, temos uma cena onde ou- vimos um diálogo entre Norman Bates e sua mãe, eles estão dentro de um quarto, fora de 70 quadro, a câmera sobe as escadas e se posi- ciona no teto do corredor; o diálogo continua e de cima para baixo duas pessoas aparecem, ele carregando a mãe no colo, conversando e descendo as escadas; não conseguimos ver exatamente as bocas se movimentando, mas eles estão em quadro, construção muito significativa pois, na verdade, só existe uma fonte, um personagem que fala com duas vo- zes diferentes, dando a impressão que temos duas pessoas conversando – o filho é a mãe, o que só será desvendado no fim do filme. 3) por último, no filme O Show Tem que Continuar (All That Jazz, 1979), de Bob Fosse, o som subjetivo é trabalhado em uma cena de um ensaio de um espetáculo, onde o personagem principal coordena a leitura do texto; os atores começam a ler e dar risa- das, aos poucos todos os sons desaparecem e ouvimos somente os sons produzidos pelo personagem que está completamente distan- te do que acontece ao seu redor; imagens das pessoas rindo, falando e se movimentando não tem som, mas a respiração do persona- gem e seus movimentos aparecem isolados de tudo mostrando a subjetividade sonora da cena; o que ouvimos é só o que ele ouve e não o que vemos em quadro. Esses três exemplos foram produzidos com som mono (somente um canal), o que mostra que a construção dos sons nos espa- ços sonoros propostos independem da espa- cialização stereo ou surround. Pensando na música concreta e no diretor de som ou sound designer de um filme como um “compositor de sons” ou o compositor de uma música concreta que vai acompanhar o filme, ele vai colaborar com a preocupação de pensar o som de um filme não só tecnicamen- te, mas também conceitualmente. As teorias do cinema, em geral, trabalham pouco ou tratam o som como um domínio menor, e o