Hatari! Revista de Cinema HATARI! #02 Teen Movies (2015) | 页面 69

MICHEL CHION afirma em seu livro A Audiovisão, que os sons no cinema “rara- mente” não são manipulados. Eu vou mais longe, afirmando que são todos manipula- dos, sempre. Ele cita um exemplo de Straub e Huillet, no filme Trop Tôt, Trop Tard (1982), onde os realizadores deixam o som direto gravando durante a cena e não editam na montagem; temos cortes secos entre uma cena e outra, o que nos causa um estranha- mento por estarmos acostumados com fu- sões e passagens trabalhadas entre as cenas, já que nossos ouvidos “percebem” muito mais os cortes do que nossos olhos, pelo fato de não piscarem. Penso que, mesmo se tivermos um som direto não editado e não trabalhado, houve uma escolha do microfone assim como o lugar onde ele foi colocado; o microfone já “escuta” de maneira diferen- te de nossos ouvidos, e cada microfone tem características diferentes, tanto de qualidade sonora e timbre quanto de direcionalidade, portanto, em um plano podemos ter “reali- dades” sonoras diferentes dependendo das escolhas. Tudo isso partindo da maneira mais crua possível: um microfone captando o som direto e colado na imagem correspondente. Entretanto o que geralmente acontece no ci- nema é bem mais do que isso. Pegamos o som captado nas filmagens, levamos para o estúdio onde ele será tratado – usando filtros, equili- brando volumes, equalizando, suavizando os cortes – e, além disso, em uma grande parte dos filmes o som será também criado e mani- pulado na pós produção, com o acréscimo de foleys, efeitos especiais, camadas sonoras etc. Logo, temos o som direto, o som gravado no estúdio e o tratamento desses sons para tentar, na maior parte do tempo, criar uma realidade. Esses sons serão sempre manipulados, nunca existindo um som absolutamente real, “com- pleto e sem aditivos” (CHION, 2005). 68 Partindo dessa ideia, de que todo o som no cinema é pensado, elaborado, concebido, manipulado e mixado no final, penso que o conjunto de sons do filme, esta trilha sonora – que pode conter ruídos, vozes e música –, pode ser considerada uma música concreta! Pois o diretor de som de um filme – que pode ser chamado de editor de som, sound designer etc. – vai trabalhar com sons previamente gravados, ou no set de filmagem ou pos- teriormente em estúdio; e compor a partir desses sons, procedimento que é a base da composição eletroacústica. Entretanto, esta música concreta está vinculada a uma ima- gem, ela não é independente, ela não pode ser criada sem ter uma relação direta com a imagem; assim essas duas linguagens, a visual e a sonora, vão se relacionar para a composição de uma obra única, audiovisual, que é o filme. Isso acontece já na música para cinema: com origens na música erudita europeia (a música hollywoodiana tem sua base na música europeia); ela é composta so- bre as imagens, podendo seguir o ritmo das imagens – interno ou externo, ela pode ilus- trar, acompanhar os movimentos, as ações, o pensamento, mas estará sempre vinculada à imagem, a composição não está a serviço da imagem, mas depende dela para aconte- cer, mesmo que posteriormente, ela possa ter vida própria. Dito isso, passamos a uma reflexão so- bre a composição, a composição desta “mú- sica concreta” que será a banda sonora do filme. Como trabalhamos esses sons? Não separamos e cortamos simplesmente cada som, mas temos uma preocupação especial sobre eles: manipulá-los para chegar às sen- sações psicoacústicas diversas. Porque não usar o som de socos quando temos a imagem de socos? Para ter uma qualidade sonora di- ferente que possa colaborar com a narrativa do filme, partindo de um projeto de som e um conceito sonoro que foi criado junto com o diretor do filme. Para este trabalho temos